Diálogo entre saberes ancestrais e acadêmicos

Ademir Barbosa Júnior

Dentre tantas belezas das religiões de terreiro está a diversidade (de cosmovisões, conceitos teológicos, mitologias, ritos, liturgias etc.), daí a importância de nos mantermos unidos, em vez de unificados, o que certamente comprometeria a pluralidade de vozes que nos permite caminhar juntos (as), mas cada qual no seu passo. Essa diversidade ao mesmo tempo encanta e por vezes assusta o (a) pesquisador (a). Encanta porque não uniformiza: o (a) pesquisador (a) nunca encontrará duas casas de Axé iguais, ainda que do mesmo segmento e da mesma família. Nem dois Orixás, dois Caboclos ou dois médiuns, aliás. Assusta porque provoca e amplia o trabalho de pesquisa, sobretudo quando o (a) pesquisador se ilude em encontrar respostas prontas, uniformes e tabuladas.

O diálogo com o (a) pesquisador (a), acadêmico (a) ou não, deve deixar claros alguns pressupostos, sendo o principal o fato de, mais do que objetos de pesquisa, somos sujeitos de nossa própria história. O Povo de Axé – como aliás nenhum indivíduo ou povo – não pode ser visto como algo estanque e passivo que atenda à expectativa de formulários, tabelas ou – pior – prejulgamentos. Para compreender o Povo de Axé, há que botar o pé no chão, frequentar nossas casas e, além de ouvir, compartilhar nossas histórias e lutas. Senão a pesquisa vira monólogo, não diálogo.

Intelectualizar ou academicizar a sabedoria e a experiência do Povo de Axé também é uma forma de apropriação cultural. Não vivenciamos nossa espiritualidade nem nossas histórias individuais e lutas coletivas para sermos aprisionados em documentários, livros e fotos, espaços onde devemos figurar como protagonistas, e que funcionem como portas de entrada para quem quiser estar conosco, partilhar o ajeum, tomar café ou marafo conforme o caso, a circunstância, e mesmo um Guia em terra.

Por outro lado, é importante que o Povo de Axé ocupe as universidades, aprofundando de verdade o diálogo entre os saberes ancestrais e os acadêmicos. Nosso Povo pode e deve falar por si próprio, relatar suas inquietações, propor caminhos, uma vez que – como, aliás, todo indivíduo ou Povo sabedor de seu valor – entende muito bem de caminhos e encruzilhadas.

Ademir Barbosa Júnior (Pai Dermes de Xangô), escritor, doutor em Comunicação pela UNIP; Mestre em Literatura Brasileira pela USP; Pós-graduado em Ciências da Religião pelo Instituto Prominas; dirigente da T. U. Caboclo Jiboia e Zé Pelintra das Almas e Ogã do Ile Iya Tunde (Tata Obasiré). Realiza estágio pós-doutoral em Comunicação na UNIP e em Ciências da Religião na PUC-Campinas

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