São tantas coisas em quarenta anos

Ari Junior

 

Em 1986, eu tinha oito anos. O Brasil ainda ouvia música em vinil, rádio e fita cassete, e ninguém carregava milhares de canções no bolso. Foi naquele ano que Roberta Miranda lançou seu primeiro LP, um disco que agora completa quatro décadas e que, para mim, envelheceu de um jeito curioso: quanto mais o tempo passa, menos consigo ouvi-lo apenas como um conjunto de músicas. Ele acabou misturado a lembranças, pessoas e fases da minha própria vida.

Era um trabalho de estreia, mas não tinha jeito de ensaio. Das doze faixas, nove traziam a assinatura de Roberta, sozinha ou em parceria. Estavam ali “São Tantas Coisas”, “Meu Dengo”, “Senhor”, “Maria”, “Desespero de Uma Noite” e, entre outras, “Anseios”, com participação de Dalvan. Para quem depois se acostumou a vê-la consagrada, é interessante voltar àquele disco e encontrar uma artista no começo da carreira, mas já muito segura do que queria dizer.

Minha ligação com esse LP começou dentro de casa. Minha irmã mais velha ganhou uma cópia de presente de meu pai, e até hoje não sei o que o levou a fazer aquilo. Ele era um homem durão, pouco dado a presentes, e o gesto não combinava com o jeito que conhecíamos. Minha irmã nunca explicou se houve alguma razão especial, e eu também nunca soube por que o disco foi para ela, e não para minha mãe. Sei apenas que aquilo a tocou profundamente. E, usando um trocadilho inevitável, ela também tocou, tocou e tocou aquele disco até a exaustão.

Hoje tenho minha própria cópia. A dela deve ter ficado com os filhos ou se perdido pelo caminho; não sei ao certo. Mas bastam os primeiros acordes de “São Tantas Coisas”, faixa que abre o LP, para o rosto dela se materializar na minha memória. Voltam o sorriso, o tom da voz, o jeito de rir. É como se eu fosse transportado outra vez para o Jardim Rosana, em São Paulo, e a visse repetir um de seus bordões preferidos, geralmente depois de alguma situação sem graça: “Não é de rir, mas a gente ri assim mesmo.”

É aí que percebo como uma música consegue guardar coisas que nenhum encarte registra. Roberta Miranda não poderia saber que, quarenta anos depois, aqueles acordes seriam capazes de devolver a um irmão a presença de uma irmã. A canção continua a mesma, mas nós mudamos, perdemos pessoas, atravessamos cidades, envelhecemos. Por isso ouvimos de outro jeito aquilo que um dia apenas escutávamos.

Quarenta anos também são tempo suficiente para mudar a própria música sertaneja, os aparelhos, a indústria fonográfica e a maneira de consumir canções. Em 1986, um disco precisava caber em dois lados de vinil e conquistar espaço nas rádios. Hoje uma música atravessa o mundo em minutos. Ainda assim, seguimos procurando nela a mesma coisa: um lugar onde possamos guardar sentimentos que, sozinhos, nem sempre sabemos nomear.

Não consigo, portanto, olhar para esse aniversário apenas como uma efeméride musical. Aquele disco marca a estreia de uma das grandes compositoras e intérpretes da música sertaneja brasileira, mas marca também uma sala, uma família, uma irmã e um tempo que já não volta.

Quarenta anos depois, Roberta Miranda continua cantando, eu continuo ouvindo, e minha irmã continua aparecendo toda vez que a agulha encontra o começo de “São Tantas Coisas”. O título, que em 1986 nomeava apenas a primeira faixa, acabou se tornando uma definição perfeita de tudo o que um velho disco consegue guardar.

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Ari Junior, escritor, cronista e supervisor de compras

 

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