Gregório José
O Brasil está entrando em uma primavera que não permite distração. A previsão de calor intenso, períodos prolongados de seca e eventos extremos, especialmente no Norte e no Nordeste, não pode ser tratada como mais uma notícia sobre o tempo. É um alerta sobre saúde, responsabilidade pública e, principalmente, sobre quem não tem condições de se proteger sozinho.
O El Niño deverá ganhar força nos próximos meses, com reflexos diferentes entre as regiões brasileiras. No Norte e no Nordeste, a combinação de temperaturas elevadas e menor ocorrência de chuvas preocupa. No Centro Oeste e no Sudeste, o calor deverá conviver com pancadas de chuva e mudanças bruscas. No Sul, a previsão aponta para períodos de chuva volumosa e ocorrência de eventos extremos.
Mas existe uma dimensão dessa história que costuma aparecer pouco nos mapas meteorológicos. O calor não atinge todos da mesma maneira.
Crianças pequenas estão entre as mais vulneráveis. Quanto menor a criança, maior a dificuldade do organismo para controlar a temperatura corporal. Bebês dependem inteiramente dos adultos para hidratação, proteção e ambiente adequado. Quando o calor aperta, qualquer descuido pode deixar de ser apenas desconfortável e se transformar em problema de saúde.
Entre os idosos, a situação também exige atenção redobrada. Acima dos 80 anos, principalmente entre pessoas acamadas, debilitadas ou internadas em asilos e casas de repouso, o risco é ainda maior. Muitos dependem de terceiros para beber água, trocar de ambiente, tomar banho, aliviar o calor ou simplesmente perceber que algo não está bem.
É justamente aí que entra a responsabilidade dos governos municipais.
Prefeituras não podem esperar que uma onda de calor provoque internações para depois reagir. É preciso identificar previamente os grupos vulneráveis, orientar famílias, fiscalizar instituições de longa permanência, reforçar a atenção básica e preparar unidades de saúde para períodos de maior demanda.
Também é necessário cobrar condições mínimas de ventilação, hidratação e conforto térmico em instituições que abrigam idosos. Não basta abrir uma campanha nas redes sociais quando a temperatura já estiver sufocante. Prevenção exige planejamento, estrutura e dinheiro público aplicado onde realmente faz diferença.
O calor extremo não escolhe suas vítimas, mas seus efeitos são mais severos sobre quem tem menos capacidade de reação.
A meteorologia está fazendo seu papel ao avisar o que pode acontecer. Agora cabe aos governos fazerem o seu.
Porque, quando uma criança pequena passa mal pelo calor ou um idoso acamado sofre as consequências de uma temperatura extrema, já não estamos falando apenas de clima. Estamos falando de cuidado, omissão e responsabilidade. E nesse terreno, nenhuma prefeitura pode alegar que não foi avisada.
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Gregório José, jornalista, radialista, filósofo, pós-graduado em “Gestão Escolar”, “Ciências Políticas” e “Mediação e Conciliação”, MBA em “Gestão Pública”