Golpe do falso advogado por vídeo: uma proteção simples e gratuita

Francisco da Matta

 

Já imaginou você estar em sua casa quando o celular toca com uma videochamada. Do outro lado, o rosto do advogado que cuida do seu processo. A voz, o jeito de falar, tudo igual. Ele diz ter surgido uma urgência: precisa depositar um valor naquela mesma tarde, se não, o prazo se perderá. O que você não sabe é que pode estar prestes a ser vítima do golpe do falso advogado em sua versão mais sofisticada, criada com a ajuda da inteligência artificial e que já fez muitas vítimas.

Como o golpe funciona

Em tempos de tecnologia, a criminalidade passou a atuar também no ambiente digital. O uso de golpes aplicados à distância permite que criminosos ajam sem se expor fisicamente, multiplicando o número de vítimas.

No golpe do falso advogado, os criminosos pesquisam dados reais em sites do Poder Judiciário e sistemas de consulta pública, buscando o número do processo, o nome das partes, do advogado e a fase atual da ação. Com essas informações, criam um perfil falso, geralmente no WhatsApp, utilizando a foto do profissional ou a marca do escritório de advocacia contratado e entram em contato com a vítima se passando por ele ou por um colaborador. A justificativa é sempre urgente: o pagamento imediato de uma taxa ou transferência de valores para obter alvará para resgatar uma quantia que a vítima espera receber no processo (indenizações, aposentadorias ou verbas rescisórias), pagar as custas do processo, de uma fiança etc. Para transmitir veracidade e impedir que a vítima desconfie, costumam até forjar documentos e decisões com o logotipo do tribunal.

É comum os golpistas usarem números de telefonia e celular com DDDs estranhos, o que ajuda pessoas cautelosas a suspeitarem de fraude. No entanto, já há diversos casos em que os golpistas utilizam o número de telefone idêntico. Essa prática ocorre por meio de diferentes táticas tecnológicas e de engenharia social.

Atualmente, golpistas passaram a fazer uso de deepfake, que é uma técnica baseada em Inteligência Artificial (IA) usada para criar ou manipular vídeos, fotos e áudios, fazendo com que uma pessoa pareça dizer ou fazer algo que nunca disse ou fez na realidade.

Com poucos minutos de vídeo e áudio do advogado real, obtidos em redes sociais, é possível criar uma imitação convincente do rosto e da voz, capaz de sustentar uma videochamada inteira, com direito a gestos e expressões parecidos com os originais.

Por isso aqueles conselhos de “reconhecer a voz”, “prestar atenção no rosto”, “olhar o número da ligação” já não são suficientes.

Uma solução simples: a palavra combinada no contrato

Existe uma forma de se proteger que não custa nada e não exige nenhum conhecimento técnico: colocar uma palavra secreta no próprio contrato de honorários ou em documento apartado.

A ideia é simples. Advogado e cliente combinam, por escrito, uma palavra, um código ou uma pergunta e resposta que só os dois sabem, que servirão como senha. Pode ser o nome de um lugar ou uma lembrança qualquer, escolhida na hora da assinatura do contrato. Essa senha nunca deve ser repetida em ligação, e-mail ou WhatsApp e, se o contrato for assinado por meios digitais, o mais seguro é registrá-la em documento apartado, entregue em mãos.

Por que a senha ajuda contra o golpe com deepfake?

Um golpista consegue copiar os números de telefone, celular, imagens, imitar rosto e voz com inteligência artificial, porém não consegue adivinhar uma palavra que nunca foi dita em nenhum vídeo, áudio ou rede social: a senha.

Como colocar isso em prática

Não precisa baixar aplicativo. Basta pedir ao seu advogado para incluir essa cláusula com a senha no contrato, com poucas linhas a mais no documento que, de qualquer forma, já seria assinado.

Se já é cliente, também pode se proteger. Basta combinar a senha com o advogado em uma reunião ou formalizá-la por aditivo ao contrato de honorários já assinado, sempre em um momento seguro e por iniciativa de uma das partes, nunca em resposta a uma ligação ou mensagem inesperada.

Dos avanços na proteção contra o golpe

Diante dessa nova realidade, a proteção pessoal exige uma mudança de comportamento e a adoção de medidas preventivas também no campo virtual.

Essa proteção pode ser usada junto com outras que já existem, como o ConfirmADV, da OAB Nacional, que permite conferir a identidade de um advogado pelo número de inscrição.

O Judiciário também tem se empenhado contra este golpe, por exemplo, por meio da utilização de autenticação em duas etapas (MFA) para conseguir acessar o processo.

Em 2025, a OAB registrou mais de 14,6 mil denúncias desse golpe. Há casos em que vítimas sofreram prejuízos em valores superiores a R$ 200 mil.

E se você já caiu no golpe?

Aja rápido: avise imediatamente o seu banco para tentar bloquear o valor e acionar o Mecanismo Especial de Devolução (MED), no caso de Pix. Em seguida, registre boletim de ocorrência e comunique o seu advogado verdadeiro e a OAB. Quanto mais cedo a denúncia, maiores as chances de recuperar o dinheiro.

Se desconfiar de alguma coisa, desligue e ligue de volta para o advogado por um número já conhecido, como o telefone do escritório, e solicite a “senha”.

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Francisco da Matta, advogado e vice-presidente da Comissão de Direito do Consumidor da OAB (8ª Subseção).

 

 

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