Walter Naime
Há mais de dois mil anos, o general romano Pompeu, diante de uma tempestade, teria dito aos marinheiros que hesitavam em partir: “Navegar é preciso; viver não é preciso.” Segundo Plutarco, a missão era transportar trigo para Roma, que precisava de alimentos. Navegar, portanto, era uma necessidade coletiva que exigia coragem.
Pompeu falava da necessidade de navegar. Séculos mais tarde, Fernando Pessoa, inspirado nessa expressão, retomou os versos: “Navegar é preciso; viver não é preciso.” Já não havia tempestade nem navios de trigo. A navegação era a da alma, dos sonhos e da busca de sentido.
E aqui está a pegadinha: “preciso” pode significar necessidade e também precisão. “É preciso saber viver” quer dizer que é necessário saber viver. Já “preciso a medida” significa exatidão.
Não por acaso, “preciso” poderia ser a maior pegadinha de um vestibular: uma palavra, dois sentidos e um candidato entre a necessidade de responder e a precisão de não errar!
A vida não vem com mapa ou manual. Se viesse, talvez ainda estivéssemos procurando a página inicial. Às vezes, a razão indica um caminho, o coração aponta outro e a experiência reclama: “Eu já passei por isso antes!”
A sabedoria que virou canção Mais tarde, Roberto Carlos e Erasmo Carlos levaram à música popular “É Preciso Saber Viver”, transformando-a numa reflexão sobre escolhas, ilusões e desafios. A canção não oferece receita para a felicidade, mas uma advertência: viver exige discernimento. Nem tudo que parece bom é bom; nem toda aparência corresponde à realidade; nem toda estrada fácil conduz ao destino desejado.
Não reproduzo aqui a letra integral, mas sua sabedoria pode ser resumida assim: é preciso aprender com as experiências, reconhecer as ilusões e fazer escolhas conscientes. A vida ensina, embora nem sempre com delicadeza. Às vezes, entrega a lição junto com a conta para pagar!
Ao longo da vida, aprendemos que o sofrimento faz parte da condição humana. Não podemos eliminá-lo, mas podemos evitar sofrimento desnecessário. Saber viver significa reconhecer o que podemos mudar, compreender o que exige paciência e não transformar cada contratempo numa tragédia universal.
Como observador, percebo muitas vezes que o refrão “É preciso saber viver” funciona como uma pequena carta de navegação para histórias humanas. Pessoas de idades diferentes encontram nele uma síntese do que aprenderam nas alegrias e dificuldades do caminho.
Vivemos uma época de transição e incertezas. A tecnologia acelera o cotidiano, as relações se transformam e o futuro muda antes que consigamos entendê-lo. Nesse cenário, saber viver passa a ser necessidade para preservar a esperança.
A precisão da vida não está em controlar tudo, mas em identificar o que realmente importa: saber quando avançar, esperar, falar ou ouvir. Nem toda batalha merece nossa energia, nem toda vitória compensa o preço de perder a serenidade.
Moral da história: Se Pompeu ensinou que havia momentos em que era preciso navegar, Fernando Pessoa transformou a navegação em poesia, e Roberto e Erasmo fizeram da sabedoria uma canção que atravessa gerações, cabe a nós completar a lição com a experiência cotidiana.
É preciso saber viver, porque a vida não vem com manual, mas oferece diariamente a oportunidade de aprender.
Não se trata de viver sem sofrimento, e sim de não acrescentar sofrimento inútil ao que já faz parte da jornada. Não se trata de eliminar as incertezas, mas de atravessá-las com coragem, prudência, sabedoria, moral e integridade.
A grande precisão da existência talvez seja reconhecer que não controlamos o vento, mas podemos aprender a conduzir melhor a embarcação. Quando o mar se agita e os horizontes ficam nebulosos, não devemos abandonar a esperança.
Porque viver é uma travessia. E a maior vitória não está em chegar ao porto sem tempestades, mas em conservar humanidade, sabedoria e esperança para continuar navegando.
É preciso viver. É preciso aprender. É preciso saber viver!
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Walter Naime arquiteto-urbanista, empresário