Biomarcadores do câncer

Douglas Alberto Ferraz de Campos Filho

 

Durante muito tempo, diagnosticar e tratar o câncer significava principalmente identificar onde estava o tumor, avaliar seu tamanho e observar sua aparência ao microscópio. Hoje, a oncologia vive uma transformação profunda. A medicina começa a compreender que dois tumores localizados no mesmo órgão podem apresentar características moleculares completamente diferentes e, portanto, responder de maneira muito distinta aos tratamentos.

É nesse cenário que surgem os biomarcadores oncológicos: moléculas, alterações genéticas, proteínas ou outras características biológicas capazes de fornecer informações sobre a presença, o comportamento, o prognóstico ou a provável resposta de um tumor ao tratamento. Eles podem ser pesquisados no tecido tumoral e, em determinadas situações, no sangue ou em outros líquidos corporais.

Na prática, os biomarcadores podem exercer diferentes funções. Alguns auxiliam na classificação da doença; outros ajudam a estimar seu comportamento. Existem ainda aqueles que indicam se determinado medicamento tem maior probabilidade de funcionar. Essa última aplicação é fundamental para a chamada medicina de precisão, na qual o tratamento deixa de ser escolhido apenas pelo órgão atingido e passa a considerar as características moleculares do tumor.

O câncer de pulmão é um dos exemplos mais impressionantes dessa transformação. Nos carcinomas de pulmão de não pequenas células, especialmente nos adenocarcinomas, a investigação molecular pode identificar alterações em genes como EGFR, ALK, ROS1, BRAF, MET, RET, NTRK e KRAS, entre outros. Quando uma alteração é considerada tratável, ela pode abrir caminho para uma terapia-alvo específica.

O PD-L1 representa outra informação importante. Diferentemente de uma mutação genética, trata-se de uma proteína cuja expressão no tumor pode ajudar na avaliação da possibilidade de utilização de determinadas estratégias de imunoterapia. Dessa maneira, o patologista e o oncologista passam a trabalhar com informações cada vez mais detalhadas sobre a biologia daquela neoplasia.

Essa evolução modifica também o papel do diagnóstico. Atualmente, não basta dizer que um paciente possui “câncer de pulmão”. É necessário, sempre que possível, determinar o subtipo histológico, o estágio da doença e suas características moleculares. O resultado pode alterar completamente a estratégia terapêutica. Revisões recentes destacam que a testagem de biomarcadores passou a ocupar posição central no planejamento inicial do tratamento de muitos pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células.

Os marcadores tumorais encontrados no sangue, como CEA e outros antígenos, também podem ter utilidade clínica em situações específicas, principalmente no acompanhamento de determinados pacientes. Entretanto, é fundamental evitar uma interpretação equivocada: um marcador tumoral sanguíneo isolado não é sinônimo de câncer e, em geral, não substitui os métodos convencionais para diagnóstico ou rastreamento. A sensibilidade e a especificidade desses exames variam consideravelmente.

Uma das fronteiras mais promissoras é a chamada biópsia líquida. Por meio da análise de fragmentos de DNA tumoral circulante no sangue, pesquisadores procuram identificar alterações genéticas, acompanhar a evolução molecular da doença e, em determinadas circunstâncias, detectar mecanismos de resistência ao tratamento. Essa tecnologia pode permitir um acompanhamento menos invasivo e mais dinâmico do câncer, embora ainda existam limitações relacionadas à sensibilidade, à heterogeneidade tumoral, à padronização dos testes e à validação clínica.

O mais fascinante é que o tumor não é biologicamente estático. Durante sua evolução, podem surgir novas alterações moleculares capazes de modificar sua resposta aos medicamentos. Por isso, o futuro da oncologia provavelmente não será baseado em um único exame realizado uma única vez, mas em avaliações cada vez mais dinâmicas da doença.

É nesse ponto que a ciência começa a se aproximar de algo que, há poucas décadas, parecia ficção científica: acompanhar o câncer quase em tempo real, identificar suas alterações moleculares e adaptar o tratamento conforme sua evolução.

Dizer que a “cura do câncer” será descoberta em menos de 15 anos, entretanto, seria uma promessa que a ciência atual não permite sustentar. Câncer não é uma única doença, mas um conjunto de centenas de doenças biologicamente diferentes. Ainda assim, a velocidade das descobertas é extraordinária. Novos biomarcadores, imunoterapias, terapias-alvo, biópsias líquidas, inteligência artificial e tecnologias de análise genética estão mudando progressivamente a forma de diagnosticar e tratar os tumores.

Talvez o futuro não seja marcado pela descoberta de uma única “cura do câncer”, mas pela transformação de muitos tipos de câncer em doenças cada vez mais preveníveis, detectáveis, tratáveis e controláveis.

E, ao decifrar progressivamente as alterações que fazem uma célula normal transformar-se em uma célula cancerosa, a ciência também se aproxima de uma pergunta ainda maior: como surgiu a própria vida e como uma célula aprendeu, ao longo da evolução, a crescer, adaptar-se e sobreviver?

A luta contra o câncer, portanto, não representa apenas uma batalha médica. Ela é também uma das maiores jornadas científicas para compreender os mecanismos fundamentais da vida.

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Douglas Alberto Ferraz de Campos Filho, médico, escritor, divulgador cultural e científico

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