Alvaro Vargas
Embora as religiões possam divergir quanto ao destino das almas daqueles que cometem o suicídio, existe um consenso de que isso representa uma grave transgressão às leis divinas. Algumas religiões dogmáticas chegam a admitir que o suicida estaria condenado ao inferno eterno. Entretanto, essa concepção é incompatível com a ideia de um Deus infinitamente justo e misericordioso. Se Deus é soberanamente justo e bom, não poderia condenar eternamente uma criatura por um erro cometido durante uma existência terrena. O Espiritismo ensina que somos Espíritos imortais, criados simples e ignorantes, destinados ao progresso e à perfeição relativa. Podemos cometer graves equívocos ao longo dessa trajetória, mas nenhum deles implica condenação definitiva. A reencarnação representa uma nova oportunidade de aprendizado, reparação e crescimento espiritual. A justiça divina, portanto, não exclui a misericórdia.
É importante compreender, também, que a morte do corpo não significa o fim da existência. Para o Espiritismo, o Espírito sobrevive à morte e o desprendimento do corpo pode ocorrer de maneira mais ou menos difícil, conforme as condições morais, os apegos e as circunstâncias da desencarnação. No caso do suicídio, a interrupção voluntária da existência pode provocar intensa perturbação espiritual. Em O Céu e o Inferno (Segunda Parte, capítulo V), Allan Kardec apresenta diversos relatos de Espíritos que cometeram suicídio e que, por meio de comunicações mediúnicas, descrevem sofrimentos, arrependimento e impressões relacionadas às circunstâncias da própria morte. Esses relatos demonstram que o suicídio não elimina a consciência nem resolve os problemas que levaram o indivíduo a desejar a morte. Uma existência corporal constitui importante oportunidade de provas, expiações e aprendizado e o suicídio interrompe prematuramente essa experiência e pode acarretar consequências dolorosas para o Espírito. Entretanto, não devemos fazer generalizações. As condições espirituais variam conforme as circunstâncias, o grau de consciência, a intenção e as condições psicológicas de cada pessoa. Enfermidades mentais, dependências e outras situações que comprometem o discernimento precisam ser avaliadas com equilíbrio e compaixão.
Segundo várias obras espiritas, vivenciamos um projeto reencarnatório estabelecido no mundo espiritual, conforme a nossa necessidade evolutiva, com a data de regresso previamente determinada. Temos uma quota de “energia” – fluido vital, suficiente para cumprir essa jornada. Caso ocorra um retorno antecipado ao mundo invisível através do suicídio, a alma ainda não consumiu o fluido vital que lhe permitiria manter-se encarnada na Terra conforme o previsto. Nesse caso, para não influenciar negativamente os humanos, a alma do suicida necessita permanecer em regiões isoladas (como o Umbral), onde geralmente permanece o mesmo tempo de vida que teria na Terra, drenando de seu perispírito, todas essas energias vitais.
Cada Espírito vivencia as consequências de seus atos de acordo com sua situação espiritual e ninguém está condenado eternamente. Esse sofrimento é temporário e não constitui vingança divina, mas consequência natural da transgressão das leis que regem a vida. O arrependimento, o auxílio espiritual e as futuras reencarnações oferecem ao Espírito oportunidades de reconstrução. Por isso, diante de alguém que esteja sofrendo profundamente ou manifestando pensamentos suicidas, a atitude verdadeiramente cristã deve ser de acolhimento, escuta e auxílio. A prece e a assistência espiritual podem contribuir, mas não substituem o atendimento médico e psicológico quando necessários. A mensagem espírita é, acima de tudo, de esperança: a morte não é o fim e o sofrimento não é eterno. A existência terrena é transitória, mas a vida do Espírito é permanente. Na justiça e na misericórdia de Deus, sempre haverá uma nova oportunidade para recomeçar.
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Alvaro Vargas, engenheiro agrônomo-Ph.D., palestrante espírita