Existem pessoas sortudas e azaradas?

(Alvaro Vargas, Eng. Agrônomo-Ph.D., palestrante espírita)

As diferenças socioeconômicas que existem em nossa sociedade, com pessoas ricas e pobres, levam muitos indivíduos a acreditar que, para ter sucesso na vida e enriquecer, é necessário ter sorte; caso contrário, o indivíduo é considerado azarado. Para aqueles que se consideram cristãos, assumir essa interpretação das diferenças sociais é uma contradição, pois Deus sendo justo, bom e misericordioso, não poderia demonstrar preferências entre os seres da sua criação, selecionando os que seriam sortudos e os que seriam azarados.

Analisando alguns versículos bíblicos, podemos encontrar o comentário do profeta Isaías (46:10), que Deus conhece o que ainda está para acontecer: “Declaro o fim desde o princípio, e desde a antiguidade, as coisas que ainda não aconteceram”. Portanto, nada lhe é desconhecido, inclusive as nossas necessidades. O rei Salomão também afirma que embora façamos nossos planos, devemos reconhecer a ação divina em nossa existência: “O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do Senhor” (Provérbios, 16:1). Posteriormente, Jesus (Mateus, 10:29-31) esclareceu que da mesma forma que Deus cuida das pequenas aves, também conhece individualmente cada um de nós e cuida de todos. Embora façamos nossos planos, devemos reconhecer a ação divina em nossa existência. Evidentemente, Deus não apoia a ociosidade, visto que Jesus disse: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (João, 5:17), e o apóstolo Paulo por sua vez, adverte que somos responsáveis pelas nossas ações: “Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá” (Gálatas, 6:7).

Segundo a Doutrina Espírita, assumimos, no mundo espiritual, um projeto reencarnatório compatível com nossas necessidades evolutivas e com as experiências e o progresso alcançado nas existências anteriores. Aqueles que, em outras existências, detiveram grandes recursos materiais e fizeram mau uso deles poderão, em determinadas circunstâncias, vivenciar experiências que lhes possibilitem compreender melhor o valor dos bens materiais, desenvolver a humildade e aprender a utilizá-los em benefício próprio e do próximo. Da mesma forma, aqueles que abusaram de posições de mando poderão encontrar, em outra existência, situações que lhes permitam compreender melhor as responsabilidades inerentes ao exercício do poder e superar as tendências que os levaram ao equívoco.

Embora possa existir uma influência de nosso passado na existência atual, pelas ações que praticamos diariamente estamos sempre plantando e colhendo. Assim, não devemos imaginar que para ser aprovado em um teste de admissão para um emprego tenha relação com a sorte. Se aspiramos a um bom emprego, é fundamental que busquemos capacitação para alcançá-lo. Da mesma forma, se estamos empregados e queremos preservar essa situação, devemos demonstrar o nosso valor pela competência, dedicação e produtividade. Temos plena condição de viver bem e dentro de certas limites e sermos felizes. Isso não é uma questão de sorte, mas da conquista realizada com muito sacrifício e dedicação para atingir os objetivos almejados.

Temos, portanto, condições de construir uma vida melhor e, dentro das circunstâncias que nos são oferecidas, alcançar a felicidade. Isso não significa que todos terão as mesmas oportunidades ou que todo esforço produzirá necessariamente o resultado material desejado. A vida é mais complexa do que isso e envolve circunstâncias que nem sempre podemos controlar. Entretanto, do ponto de vista espírita, não somos vítimas do acaso. Somos Espíritos em processo de evolução, responsáveis pelas escolhas que fazemos e pelas consequências que delas decorrem. Mais do que esperar pela sorte, cabe-nos trabalhar, aprender, servir e fazer o melhor que estiver ao nosso alcance.

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