Walter Naime
O poeta Bocage ficou famoso por uma frase que atravessou os séculos: “Pior a emenda do que o soneto.” Ele falava de poesia. Mas, olhando para a política brasileira, dá vontade de adaptar: “Pior que o rombo é a explicação do rombo.”
Porque dívida todo mundo entende.
Se uma família gasta mais do que ganha, entra no vermelho. Se uma empresa faz isso por muito tempo, quebra. Mas quando é governo, aparecem nomes bonitos para coisas simples. O gasto vira investimento. A dívida vira oportunidade. O rombo vira interpretação.
E a conta? Bem, essa continua sendo conta.
O brasileiro conhece aquela figura do sujeito que está devendo até as cuecas, mas chega ao churrasco contando vantagem. O problema é quando essa cena sai da mesa do bar e entra na administração pública.
Foi algo parecido que colocou o governo Dilma Rousseff no centro de uma enorme crise política. As famosas pedaladas fiscais viraram símbolo de um jeito de empurrar problemas para frente para melhorar a aparência das contas. A bicicleta ficou tão famosa que entrou para a história política do país.
Mas parece que a bicicleta não foi aposentada.
Os críticos das contas públicas atuais dizem que ela apenas ganhou marchas novas, pneus novos e um manual mais sofisticado. Em vez de resolver o problema, inventam-se novas formas de contorná-lo.
É como alguém que não consegue pagar a prestação da geladeira, faz outro empréstimo para cobrir a dívida e depois comemora porque conseguiu adiar a cobrança por mais alguns meses.
A dívida continua lá. Só mudou de endereço.
O economista Marcos Mendes tem chamado atenção para isso. Segundo suas análises, parte dos resultados apresentados pelo governo pode depender de receitas temporárias e de exceções que deixam as contas mais bonitas no papel do que na vida real.
Traduzindo para o português das ruas: a parede recebeu tinta nova, mas a rachadura continua atrás da pintura.
A pergunta é simples.
Quem cria uma dívida gigantesca já está pensando em como pagá-la?
Ou está pensando apenas em como gastá-la?
Porque qualquer trabalhador sabe que uma coisa é fazer uma dívida para comprar uma casa.
Outra é gastar sem ter a menor ideia de quem pagará a conta depois.
Talvez seja aí que entre aquela velha frase: “Dê poder a alguém e você saberá quem ele é.”
Quando o dinheiro é pouco, todo mundo fala em responsabilidade. Quando os cofres se abrem, aparecem projetos, promessas, programas, anúncios e uma criatividade impressionante para encontrar justificativas.
O difícil é encontrar a mesma criatividade na hora de fechar as contas.
Se Bocage estivesse vivo, talvez escrevesse um soneto diferente. Não falaria de amores impossíveis. Falaria de planilhas impossíveis.
Não rimaria coração com paixão.
Rimaria gasto com atraso.
Promessa com despesa.
E rombo com tombo.
No fim, a verdade é teimosa.
Governos passam.
Presidentes passam.
Partidos passam.
Mas as dívidas ficam.
E quem paga a conta quase nunca é quem assinou o cheque. É o contribuinte, por meio de impostos, inflação, juros mais altos e serviços públicos cada vez mais apertados.
Por isso merecem respeito os jornalistas, economistas, auditores e cidadãos que insistem em olhar os números quando muitos preferem olhar apenas os discursos.
São eles que levantam o tapete quando a sujeira parece confortável demais para continuar escondida.
Porque sem fiscalização a mentira vira rotina.
Sem transparência a conta desaparece do papel, mas não desaparece da realidade.
E talvez a grande lição de Bocage para o Brasil de hoje seja justamente esta: quando o soneto já está ruim, não adianta inventar remendos cada vez maiores.
Chega uma hora em que a melhor solução não é melhorar a explicação, é corrigir o problema.
Walter Naime, arquiteto-urbanista, empresário.