Duelo de Gigantes

Em memória do maior cronista esportivo que já pisou em terras tupiniquins: Nelson Rodrigues

 

Ari Junior

 

Não, o que tivemos neste domingo não foi um embate de Davi contra Golias. Foi uma luta de Golias contra Golias, que duelaram em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Infelizmente, o gigante que prevaleceu é norueguês, com 25 anos e espantosos 1,95m, atendendo por Erling Haaland. Diferentemente do filisteu bíblico que foi atingido letalmente na testa, o gigante norueguês usou a sua testa para atingir de forma sumária o gigante verde amarelo, chamado Seleção Brasileira. Não satisfeito em vê-lo sangrando, desfere pouco depois, de perna esquerda, um chute indefensável, que confirma de vez a derrota do escrete canarinho, adiando o sonho do hexa campeonato por mais quatro anos e nos fazendo amargar o maior jejum de títulos, desde a primeira vitória, em 1958.

É claro que haverá uma enxurrada de análises, cobranças, xingamentos e toda sorte de justificativas para explicarem o que houve na noite de 05 de julho de 2026 no MetLife Stadium, e, adianto: todas elas são válidas, verdadeiras, plausíveis, e eu assino embaixo! Afinal de contas, somos 220 milhões de técnicos de futebol no Brasil, cada um com sua escalação, sua fórmula milagrosa para o êxito e a glória eterna, e ai de quem duvide disso. Como sou avesso a controvérsias, tenho certeza de que o melhor para o Brasil era ter levado o Estêvão, mas tenho a mesma convicção que ele não ter sido escalado foi a mais acertada decisão. Estou tão certo que o Weverton está injustamente colocado como terceiro goleiro, quanto tenho absoluta convicção de que o Alisson era o mais acertado palpite para guardar nossa meta. Sim, são controversas e díspares as opiniões, mas, concordo com todas. Não se contraria o técnico da maior seleção de todas, e se, assim como eu, você, caro leitor, também se auto empossou neste cargo, quem serei eu para questionar sua lista sagrada?

Sendo assim, faz-se necessária a lembrança por parte deste técnico aqui, das qualidades do gigante que tombou hoje lá pelos lados do Tio Sam: o maior (sim, o maior) campeão desta competição desde sua criação. Ninguém tem cinco títulos em Copa do Mundo, e em 2026, ninguém terá, pois quem poderia fazê-lo, ou nem veio, ou caiu pelo meio do caminho. Ninguém, assim como ele, participou de todas as edições desse torneio, sem deixar de marcar presença numa só sequer. E este mesmo gigante gestou em seu ventre verde amarelo ninguém mais, ninguém menos, que o maior de todos nessa modalidade esportiva. O rei que os grandes se curvam e respeitam, senão por admiração, por obviedade; a majestade do futebol, Pelé. Se isso não for um currículo invejável do nosso gigante, o que poderia ser?

O gigante Haaland com seus compatriotas foi mais efetivo, fato. Mas o gigante verde e amarelo teve pênalti ao seu favor, bola que quase encobriu o goleiro, saída de atacante cara a cara com o arqueiro adversário, muito mais chances, mostrando sim, o futebol arte que encanta o mundo há anos, encanta e amedronta de tal forma, que é sabido que um dos objetivos mais aguerrido do restante do mundo futebolístico é moldar as seleções do restante do mundo a um jogo calculado, agressivo na força e cadenciado, exatamente para sufocar a arte, que brota abundante nos campinhos de terra batida do nosso imenso país.

Polêmica minha análise? Talvez a intenção seja essa. Ufanismo desmedido e descabido no mundo globalizado do século XXI? Que seja! Nunca escondi meu amor por esse país a despeito do que as pessoas insistem em fazer com ele. Este cronista aqui com certeza viu outro jogo? Pode até ser. O escritor que homenageio aqui no começo do texto tinha pouca capacidade visual, e ao ir para o estádio torcer pelo seu amado Fluminense, era ajudado pelos amigos, que narravam os lances principais para ele. No dia seguinte, na redação do jornal que trabalhava, ele unia os relatos com sua capacidade criativa, e saíam pérolas do texto futebolístico da mais alta grandeza. Não me arvoro a tanto, mas, quem sabe, o jogo que relato acima é fruto do que vi, somado ao meu amor e esperança inabalável por minha pátria de chuteiras…

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Ari Junior, escritor, cronista e supervisor de compras

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