Documentação – Evento aproxima educadores da história de Piracicaba

Iniciativa reuniu cerca de 135 professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental I. CRÉDITO: Fabrice Desmonts

 Realizado na quinta  (25) pelo Setor de Gestão de Documentação e Arquivo, encontro abordou temas como apagamento histórico, patrimônio documental e educação antirracista

 

O Salão Nobre “Helly de Campos Melges” da Câmara Municipal de Piracicaba recebeu, nesta quinta-feira (25), encontros de formação nos períodos da manhã e da tarde, voltados a educadores da rede municipal dentro das ações da Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER) e da Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ). O evento buscou conectar a história documental de Piracicaba à construção social e política da cidade, com foco no resgate de narrativas historicamente marginalizadas.

A iniciativa, conduzida pela doutora em História Social Marilda Soares, responsável pela formação em educação étnico-racial na rede municipal, reuniu cerca de 135 professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental I, representando todas as escolas municipais. O objetivo foi aproximar os educadores do acervo histórico da Câmara e ampliar as discussões sobre memória, patrimônio documental, escravidão, população negra e formação social de Piracicaba.

A abertura do encontro contou com a exibição de um vídeo institucional detalhando o funcionamento do Setor de Gestão de Documentação e Arquivo. Em seguida, Dayane Cristina Soldan, chefe do setor, destacou a importância de democratizar o acesso aos documentos históricos e aproximar a população do patrimônio preservado pela Câmara. Já a arquivista Giovanna Calabria apresentou registros que ajudam a compreender a formação política e social do município, ressaltando que os documentos oficiais refletem principalmente a visão dos grupos que detinham poder político e econômico em diferentes períodos da história.

Ao abordar a construção da memória histórica, Giovanna e Marilda discutiram a ausência de registros sobre diversos grupos sociais nos documentos oficiais, especialmente populações negras, povos de religiões de matriz africana e imigrantes que não pertenciam aos grupos dominantes. Segundo Giovanna, a documentação produzida ao longo dos séculos revela não apenas aquilo que foi registrado, mas também quem teve o direito de ser registrado. “Se a gente parar pra pensar, há quanto tempo o Brasil recebe pessoas estrangeiras? Desde quando as religiões de matriz africana estão no país? Vamos achar esses registros deles? Não, pois o registro era tido para quem tinha poder.”

Durante a apresentação, também foram abordados aspectos da emancipação e da formação de Piracicaba. Ao comentar a rápida mudança de nome da então Vila Nova da Constituição pouco antes da Independência do Brasil, Giovanna utilizou uma analogia para ilustrar a velocidade das transformações políticas daquele período: “Como se tivesse tatuado o nome do parceiro e menos de um mês depois aquele namoro acaba.”

A relevância do patrimônio documental local foi reforçada por Marilda Soares, que destacou o valor nacional do acervo preservado pela Câmara Municipal. “Quando o vídeo fala que Piracicaba guarda parte da história, não só de Piracicaba, como da história do Brasil.” A historiadora explicou que muitos dos processos históricos vividos pelo país, como escravidão, imigração, organização política, urbanização e relações raciais, podem ser observados diretamente nos documentos produzidos no município ao longo dos séculos.

Entre os documentos apresentados, Bruno de Oliveira, servidor do Setor de Gestão de Documentação e Arquivo, destacou um dos registros mais antigos da Câmara Municipal. Datado de 12 de agosto de 1822, o documento trata da cobrança de impostos sobre pessoas escravizadas, demonstrando como homens, mulheres e crianças eram tratados oficialmente como propriedade. Ao apresentar o conteúdo, Bruno chamou atenção para a linguagem utilizada na época: “O imposto foi cobrado para cada senhor de escravo, dono de escravo, no valor de 400 réis por cada cabeça de escravo macho, de sete anos para cima. […] Essa é a linguagem utilizada: trata o ser humano como se fosse um objeto, como se fosse um animal.”

A trajetória desses papéis em Piracicaba é emblemática: muitos seriam sumariamente descartados por fóruns e cartórios se não fosse a iniciativa pioneira de cidadãos como Jair Veiga, que os recolheu e protegeu. Décadas mais tarde, graças à intervenção de sua família e ao contato de sua neta Rosália Toledo Veiga Ometto, neta do pesquisador, esse acervo pôde ser resgatado e integrado ao patrimônio público. Após mais de um século e meio, a sobrevivência desses registros configura um testemunho definitivo contra o esquecimento.

As discussões também abordaram a presença da população negra na história local. Marilda apresentou pesquisas sobre o Largo da Santa Cruz, espaço que, segundo estudos desenvolvidos por pesquisadores da cidade, pode ter funcionado como importante ponto de sociabilidade para pessoas escravizadas e recém-libertas. A historiadora também mencionou a hipótese de que o local tenha abrigado um pelourinho durante o período colonial. “Mas isso é uma hipótese com a qual nós trabalhamos, porque não encontramos registros definitivos”, explicou.

Segundo Giovanna Calabria, um dos momentos mais impactantes do trabalho desenvolvido no arquivo envolve a análise de um processo criminal de 1867 relacionado a Benedita, identificada nos documentos apenas como “escrava”. Após sofrer sucessivas violências físicas e psicológicas, ela matou os três filhos pequenos durante uma tentativa de fuga. Capturada, foi julgada e condenada a 300 açoites e três anos carregando ferros no pescoço. Para a arquivista, o documento evidencia tanto a brutalidade do sistema escravista quanto o apagamento histórico dessas trajetórias. “Não dá pra colorir a história da escravidão no Brasil”, afirmou.

A palestra também destacou personagens importantes da história do Legislativo piracicabano, entre eles Ditinha Penezi, primeira vereadora negra da cidade, e o Dr. Antonio Messias Galdino, primeiro presidente negro da Câmara Municipal. Durante a apresentação de uma fotografia da inauguração da sede própria do Legislativo, Bruno ressaltou o simbolismo da imagem ao relacioná-la à trajetória da população negra após a abolição da escravatura. “Essa foto simboliza uma espécie de acerto de contas da Câmara com o seu passado.”

Outro aspecto abordado foi o trabalho de preservação documental realizado pelo Setor de Gestão de Documentação e Arquivo. Os participantes conheceram o funcionamento do sistema AtoM (Access to Memory), plataforma utilizada para disponibilizar documentos históricos ao público. Giovanna explicou que o processo envolve leitura, transcrição, catalogação e indexação dos materiais, permitindo que pesquisadores, estudantes e cidadãos tenham acesso qualificado às informações históricas. “Não é apenas digitalizar. Cada livro que a gente consegue colocar passou por alguém que leu, transcreveu e fez pontos de indexação.”

Ao final da atividade, os participantes puderam observar de perto livros, atas, fotografias e documentos originais preservados pela Câmara Municipal, conhecendo fontes históricas que ajudam a compreender não apenas a trajetória de Piracicaba, mas também processos fundamentais da história social e política do Brasil.

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