Achados do Arquivo – Há 100 anos, Piracicaba fazia da educação seu maior projeto

Concurso para professores, realizado há 100 anos, justificava o apelido de ‘Ateneu Paulista’ a Piracicaba. CRÉDITO: IHGP

Primeiro concurso para professores simboliza a época em que o município, conhecido como “Ateneu Paulista”, buscava se tornar o mais alfabetizado do Brasil

 

“…era a Piracicaba das conferências frequentes na biblioteca da Universidade Popular; era a Piracicaba dos saraus do Santo Estevão, construído pela iniciativa particular; era a Piracicaba que Sud Mennucci, de parceria com Samuel Neves, teimava em transformar no município mais alfabetizado da União.”

 

A definição do professor Flávio Moraes de Toledo Piza, destacado intelectual da cidade, resume a atmosfera da Piracicaba do início do Século 20. Naquele período, o município era o quinto do estado em número de habitantes e, proporcionalmente, o segundo na oferta de escolas.

Essa pujança na área da educação lhe rendeu, por parte do intelectual italiano Roberto Capri, o epíteto de “Ateneu Paulista”. E foi em meio a esse clima que, há 100 anos, em meados de 1926, se realizou o primeiro concurso público para professores das escolas municipais.

Esse fato histórico não passou despercebido pelo patrono do Setor de Gestão de Documentação e Arquivo da Câmara Municipal de Piracicaba, o professor Guilherme Vitti. Em um texto escrito entre o meio e o final da década de 1970, mestre Vitti discorre sobre esse primeiro concurso, dando destaque aos nomes dos participantes, eis que muitos dos sobrenomes dos concorrentes eram de famílias que se faziam, e ainda se fazem, presentes na crônica cotidiana da cidade.

Esta edição da série “Achados do Arquivo – Memórias de Um Arquivo” traz o texto “Vovós, vejam as provas de seu concurso…”, do professor Guilherme, cujo teor, na íntegra, segue abaixo:

 

“Vovós, vejam as provas de seu concurso…

 

A década de 1920 a 1930 foi de real importância para o ensino primário em todo o município de Piracicaba.

 

Sob a batuta do Sud Mennucci e do Dr. Samuel de Castro Neves, com a colaboração decidida da Câmara Municipal e da Prefeitura, novas normas legais foram estabelecidas, tendo por fim precípuo a ampliação da rede escolar, assim como introduzir nova sistemática na seleção do professorado.

 

Até então, o ensino das primeiras letras no município estava assim estruturado: havia o ensino particular, o municipal e o estadual, os três devidamente reconhecidos, existindo um Inspetor Escolar, pago pelo Município, encarregado da fiscalização de todos eles. Mais tarde essa função passou para o Estado.

 

Em 1926, a Câmara abriu um concurso destinado à escolha de professores para as escolas municipais, que compreendiam os cursos diurnos e noturnos, divididos em masculinos, femininos e mistos, tanto para a zona urbana, como rural. Em razão de algumas escolas terem sido desdobradas ou criadas em lugares próximos, foram elas agrupadas em um só prédio, passando a chamar-se Escolas Reunidas, sementes que seriam dos futuros Grupos Escolares.

 

Nas caixas de nº 36 e 37 do arquivo da Câmara Municipal, encontram-se todos os papéis relativos ao concurso de 1926, contendo as inscrições dos candidatos e também as provas respectivas de português, aritmética e geografia, com as notas devidas.

 

Inscreveram-se 65 professores, comparecendo às provas 51.

 

Os desistentes são: Alberto Vollet Sachs, Bruno Ferraioli, Cyro Corte Brilho, Ercilia Neves, Francisca Queluz Braz, Helena Schalch Stipp Cruz, Jorge Conrado Fischer, José Arantes Noronha, José Brás Graner, Júlio Soares Diehl, Luiz de Ávilla Del’Boux, Maria Luiza Ferreira, Mário da Silveira Leite, Olga Martins Lino, Orlando Martins Lino, Ottilia Novaes, Pautilla Frasson Soave e Stella de Andrade Fogaça.

 

Fizeram os exames escritos: Alayde Rodrigues Piza, Albertina de Camargo, Álvaro Martins de Mello, Amélia Martins de Lima, Anna Luiza Silveira, Armida Franceschi, Áurea Ferraz Sampaio, Celina Cunha, Carolina Gomes Teixeira, Dulce Ferraz Sampaio, Eduardo de Almeida Leite, Escolástica Assis Barbosa, Eufrosina Novaes, Ignês Cotrim Stratico, Haydée Ferraz Coelho, Helena Maffeis, Henriqueta de Campos Negreiros, Jenny Rocha Conceição, Joana Busato, João Batista Rolim, João Batista de Souza Negreiros, José Bonifácio da Silveira, João Batista Stella, Jonila Rodrigues, José Dell’Aringa, Lourdes Martins de Melo, Luiza Fernandes Corrêa, Margarida Perches de Arruda, Maria Aparecida Silveira Pedreira, Maria Conceição Silva, Maria de Jesus Bonilha de Carvalho, Maria Elisa Ribeiro da Costa, Maria Ferraz do Amaral, Newton de Almeida Mello, Olga de Almeida Leme, Oscarlina Oliveira Canto, Paula Mendes de Almeida, Pedro Amaral Silveira, Pureza de Camargo Barros, Rita Azevedo Godoy, Rosalina Rolim de Moraes, Senhorinha Campos Pacheco, Teresa Verza, Ulysses Zinsly, Victor Vizioli e Yolanda Leite Rena.

 

Os ainda vivos, dos relacionados acima, são conspícuos e respeitáveis avós e bisavós. Se apreciarem examinar os papéis de tão longínqua data, não se acanhem, venham vê-los.

 

Estamos a seu dispor para mostrá-los e até fornecer-lhes um xerox dos documentos. Se acharem difícil a visita mandem um filho, um neto e, quiçá, até um bisneto. Tataraneto não. Ainda não tem juízo!!!”.

 

Algumas curiosidades e observações a respeito do texto de Guilherme Vitti e dos documentos originais constantes do arquivo:

Dentre os nomes trazidos por Vitti, quatro eram estudantes da então Escola Normal, atual Sud Mennucci, apenas quatro anos antes, em 1922. Consultando o Acervo Especial do Acervo Histórico do site da Câmara, mais especificamente a coleção “Cápsula do Tempo – Sud Mennucci”, há documentos produzidos pelos então alunos Alberto Sachs, Bruno Ferraioli, Ercilia Neves e Teresa Verza.

Folheando os documentos, um registro retrata uma realidade totalmente diferente da atualidade: na solicitação de inscrição da concorrente Albertina de Camargo, ela afirma que está se inscrevendo para o concurso “devidamente autorizada pelo seu marido” e, de forma a comprovar essa afirmação, anexa a autorização escrita de próprio punho pelo esposo, bem como a certidão de casamento. À época, vigorava o Código Civil de 1916 e nele a mulher era considerada “relativamente incapaz”, o que significava que a esposa necessitava de autorização do marido para desempenhar os atos da vida civil.

Entre os concorrentes que se inscreveram e realizaram a prova, um tem lugar de extrema importância na História da cidade: Newton de Almeida Mello. Apenas cinco anos após prestar o concurso para professor, em 9 de setembro de 1931, o então jovem de apenas 26 anos compôs a música “Piracicaba”, que viria a se tornar o hino oficial do município.

Há cerca de cinquenta anos, quando da escrita do artigo por Guilherme Vitti, estava se completando meio século da realização do concurso. Possivelmente, à época, os participantes do certame contavam por volta de 70 anos. Provavelmente, Vitti conhecia muitos deles, por isso sua afirmação de que “os ainda vivos, dos relacionados acima, são conspícuos e respeitáveis avós e bisavós”.

Passados mais cinquenta anos, dificilmente algum deles esteja vivo. Talvez seus filhos. O mais provável é que seus netos, bisnetos e tataranetos estejam por aí, em Piracicaba, vivendo suas vidas nos dias que correm.

Então, hoje, ao se completarem 100 anos do primeiro concurso público para professores das escolas municipais, vale reforçar – e adaptar aos descendentes – o convite feito por Guilherme Vitti: Se apreciarem examinar os papéis de tão longínqua data, não se acanhem, venham vê-los. Estamos a seu dispor para mostrá-los e até fornecer-lhes um link de acesso – ou cópia – dos documentos.

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