Use a Modernidade a Seu Favor

Ari Junior

Não há como negar: o mundo hoje roda em outra rotação, e o celular é o nosso passaporte para esse ritmo frenético. Através dessa caixinha de vidro e metal que carregamos no bolso, encurtamos distâncias geográficas, resolvemos pendências profissionais em minutos, organizamos o churrasco do fim de semana em três cliques e mantemos contato diário com amigos que a vida acabou afastando. A tecnologia não é uma inimiga da convivência; pelo contrário, ela mudou a nossa dinâmica e, em muitos aspectos, expandiu a nossa capacidade de nos comunicarmos. O grande desafio dos nossos dias não é abdicar das telas, coisa cada dia mais improvável, mas sim aprender a alternar o compasso entre a urgência do clique e o valor do encontro.

O digital é mestre em criar o gancho. É na mensagem rápida de texto que nasce o “vamos nos ver hoje?”, no compartilhamento de uma música antiga que relembramos uma história e na foto despretensiosa que reacendemos um afeto. O celular funciona como o grande ponto de partida das nossas interações modernas. Porém, a mágica completa só se realiza quando a gente cruza a linha do virtual e chega ao destino do presencial. Simplesmente porque existem certas nuances da experiência humana que a banda larga mais veloz do mercado ainda não consegue transmitir. É aí que mora a força duma palavrinha muito conhecida por nós: equilíbrio.

Uma conversa de verdade tem sua acústica própria. No aplicativo, a gente lê as palavras secas e o risco duma interpretação incorreta é frequente; ao vivo, a gente escuta o tom de voz, a ironia fina, o entusiasmo que faz o outro falar mais rápido e o silêncio confortável de quem já se conhece há anos, e que permite que só os olhos expressem tudo o que queremos dizer. Na tela, o riso é representado por uma sequência de letras ou por um desenho amarelo; na mesa do bar ou no almoço de domingo, o riso é aquele som aberto, contagiante, que faz a gente perder o fôlego. O celular nos dá a excelente oportunidade de marcar a hora, mas é o olho no olho que valida o motivo do encontro. São linguagens diferentes que se complementam, e que não deveriam se anulam.

Viver no ritmo atual exige essa sabedoria de saber a hora de acelerar e a hora de colocar o pé no freio. O bom contato não exige que a gente vire as costas para a modernidade ou que sejamos guardiões de um passado intocável. Significa apenas que, quando o encontro finalmente acontece, viabilizado pela tecnologia, nós nos permitamos usufruir daquele momento com entrega total. É o prazer de colocar o aparelho de lado por alguns instantes não por obrigação ou purismo, mas de forma natural, quase automática mesmo, porque o assunto que está correndo na mesa é dinâmico e interessante demais para disputar espaço com as notificações de segundo plano ou fotos provando que estamos desfrutando desse momento.

Ao pensarmos bem, concluímos que, se a vida moderna é essa bonita dança de pratos que precisamos manter equilibrados, em todos os seus aspectos, por que não seria também nessa faceta da modernidade versus tradição? Usamos o celular para encurtar e encontrar caminhos, aprender, ensinar, por fim, celebrar as facilidades que ele nos traz todos os dias. Mas guardamos o momento do abraço, do brinde e do olhar atento como os nossos portos seguros. Não renunciamos a isso em promoção duma vida exclusivamente digital. Que a gente continue navegando na velocidade das redes, mas sem esquecer que as melhores histórias da nossa crônica diária continuam sendo aquelas escritas ao vivo, temperadas pelo calor da voz e eternizadas na memória de quem sabe a beleza de estar junto de verdade.

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Ari Junior, escritor, cronista e supervisor de compras

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