
Na Semana Mundial da Alergia, especialista alerta para os principais gatilhos e explica por que o inverno favorece o agravamento dos sintomas
Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 2,5 a 3,2 bilhões de pessoas sofrem com algum tipo de alergia no mundo, sendo que, desse total, aproximadamente 250 milhões apresentam alergia alimentar. Dentro desse contexto, a World Allergy Organization (WAO) promove anualmente a Semana Mundial da Alergia, de 23 a 29 de junho, campanha voltada a conscientizar a população sobre a importância de prevenir, diagnosticar e tratar doenças alérgicas.
Para o médico alergologista e imunologista Paulo Renato Monteiro Silva, do Santa Casa Saúde Piracicaba, a data é uma oportunidade para esclarecer equívocos que ainda cercam o diagnóstico e o tratamento. “A alergia é uma resposta exagerada do sistema imunológico a substâncias que, para a maioria das pessoas, são completamente inofensivas. Quando o organismo identifica esses elementos como uma ameaça, recruta leucócitos e outras células de defesa, libera histaminas e citocinas e desencadeia reações que variam desde vermelhidão na pele até situações que exijam atendimento de emergência”, explica o especialista.
Os chamados antígenos — substâncias capazes de provocar resposta imunoalérgica — podem entrar no organismo por diferentes vias. No campo alimentar, leite, ovos, camarão, amendoim, nozes, castanhas, soja, chocolate e derivados do trigo estão entre os mais conhecidos. No ambiente doméstico e externo, pólen, poeira, ácaros, fungos e o epitélio dos animais estão entre os principais responsáveis pelas alergias respiratórias. “Existe ainda o fenômeno das reações cruzadas, em que, por exemplo, uma pessoa alérgica ao látex pode desenvolver sintomas ao consumir banana-nanica, abacate, pera, manga, kiwi, pêssego, mandioca e outros alimentos. Esses casos exigem investigação mais detalhada”, ressalta o médico.
O contato com antígenos ativa anticorpos do tipo IgE, que podem desencadear quadros mais graves, incluindo comprometimento da glote e dificuldade respiratória — condição caracterizada como anafilaxia. A anafilaxia é uma reação súbita que pode afetar múltiplos órgãos em questão de minutos, com risco de evolução fatal.
A manifestação alérgica segue padrões diferentes ao longo da vida. Nos primeiros três anos, predominam as reações cutâneas e alimentares, com destaque para clara de ovo, trigo, soja e frutas cítricas. Entre os três e os sete anos, as alergias respiratórias ganham espaço, tendo a asma como principal preocupação clínica. Na adolescência, a rinite alérgica se torna mais comum, desencadeada por poeira domiciliar, pelos de animais, ácaros e fungos. “Muitos adolescentes convivem com coriza persistente e atribuem os sintomas a um simples resfriado. Essa confusão pode atrasar o diagnóstico e o início do tratamento adequado”, alerta.
O processo diagnóstico começa com o histórico do paciente, incluindo antecedentes familiares, já que a predisposição genética é um fator relevante. Existem exames laboratoriais que ajudam a avaliar o perfil alergoimune do paciente. Outro exame utilizado é o teste de sensibilidade cutânea (Prick Test), no qual pequenas amostras de substâncias alergênicas são aplicadas na pele e observadas por 15 a 20 minutos. O exame permanece como padrão de referência para a detecção de alergias, devido à sua elevada sensibilidade, podendo ser realizado em pacientes de qualquer faixa etária.
A eliminação da exposição ao alérgeno é a estratégia central do tratamento. Em casos selecionados, a imunoterapia por meio de vacinas dessensibilizantes pode ser indicada, sendo considerada o tratamento mais eficaz por conseguir modular a resposta alérgica, fazendo com que a pessoa reaja aos alérgenos de maneira normal, sem desenvolver as manifestações típicas da alergia. O tratamento com vacinas é prolongado, com duração aproximada de quatro anos, e os resultados costumam ser bastante satisfatórios quando corretamente indicado.
O médico reforça que a alergia pode surgir tanto na infância quanto na vida adulta, sem aviso prévio. “Não existe um perfil único de paciente alérgico. Quanto mais cedo o diagnóstico for feito e o tratamento iniciado, maiores as chances de controle dos sintomas e de preservação da qualidade de vida. Procurar um especialista é o primeiro passo”, conclui.