Compliance Zero, Confiança Zero

Rafael Jacob Rafael Jacob

Há acontecimentos que não chegam ao noticiário apenas como notícia. Chegam como teste. Testam a paciência do cidadão, a maturidade das instituições e, sobretudo, a capacidade da vida pública brasileira de olhar para si mesma sem trocar os óculos conforme a cor partidária do momento. A 9ª fase da Operação Compliance Zero, envolvendo suspeitas ligadas ao Banco Master e tendo como alvo Jaques Wagner, senador do PT da Bahia e líder do governo Lula no Senado, é um desses episódios que exigem serenidade, mas também firmeza.

É preciso dizer, desde logo, que ninguém deve ser condenado antes do devido processo legal. A presunção de inocência não é favor, é pilar civilizatório. Mas há uma diferença essencial entre condenar alguém e exigir explicações públicas de quem ocupa posição de alta responsabilidade. O homem público não carrega apenas o próprio nome; carrega a confiança de milhões de brasileiros que trabalham, pagam impostos, cumprem regras e sustentam, com enorme esforço, a estrutura do Estado.

Segundo o noticiário, a investigação envolve suspeitas de repasses milionários, possível aquisição de apartamento de alto valor, voos privados e benefícios associados a pessoas próximas ao senador. Entre os valores mencionados estão R$ 3,5 milhões, um imóvel de aproximadamente R$ 2,45 milhões em Salvador e a apreensão de US$ 49 mil em endereço ligado ao parlamentar. Tudo isso precisa ser esclarecido nos autos, com documentos, provas e direito de defesa. Mas a pergunta pública já está posta: que tipo de proximidade entre poder político e interesses financeiros o Brasil está disposto a tolerar?

O caso se torna ainda mais grave porque não se trata de um personagem lateral. Jaques Wagner é uma das principais figuras do PT, partido que governa o país, e exerce a liderança do governo no Senado. Essa condição amplia, e não reduz, sua obrigação de prestar contas. Quem fala em nome do governo não pode tratar suspeitas dessa natureza como incômodo passageiro, desses que se varrem para debaixo do tapete enquanto se aguarda a próxima manchete salvadora.

O Brasil, aliás, desenvolveu uma curiosa etiqueta para lidar com escândalos. Quando o problema é do adversário, exige-se transparência instantânea, coletiva e transmitida em alta definição. Quando o problema bate à porta dos aliados, recomenda-se prudência, silêncio, chá morno e a velha promessa de esclarecimento “no momento oportuno”. Curioso país em que o momento oportuno para explicar milhões costuma chegar depois que a memória pública já foi gentilmente convidada a se aposentar.

A democracia brasileira precisa mudar de mentalidade. Não basta indignar-se por conveniência. Corrupção não muda de natureza quando muda de partido. Relações nebulosas entre bancos, operadores financeiros e agentes públicos não ficam menos graves porque envolvem este ou aquele campo ideológico. O cidadão que cumpre suas obrigações não quer espetáculo, quer verdade. Não quer linchamento, quer responsabilidade. Não quer vingança, quer instituições capazes de agir antes que a confiança desapareça por completo.

A transformação política que o Brasil tanto reclama começa por uma decisão simples: não normalizar o inaceitável. Liderança pública exige exemplo, clareza e coragem para responder. Se nada houve, que se prove com transparência. Se houve desvio, que se responsabilize com rigor. No caso Compliance Zero, o nome parece carregar uma ironia pronta. Porque, quando falta compliance no banco e falta clareza na política, o que resta ao cidadão é exatamente isto: confiança zero.

_________

Rafael Jacob é Doutorando em Engenharia pela USP, Membro do Programa de Rádio Bola na Várzea e Presidente do Partido Solidariedade de Piracicaba.

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima