O ponto fixo da promiscuidade política

Marcos Cintra

 

A política brasileira alcançou, em 2026, um estágio de deterioração institucional que vai além das disputas partidárias tradicionais. O que se observa é um padrão de convergência entre atores que deveriam representar projetos distintos, mas que acabam orbitando um núcleo fisiológico comum. Esse núcleo — o ponto fixo que chamo de Vorcaro — sintetiza a lógica de um sistema que transforma divergências ideológicas em meros instrumentos de barganha. A política não se organiza em torno de programas; organiza‑se em torno de oportunidades de extração.

Os eventos recentes expõem esse mecanismo com clareza incomum. A relação entre Executivo e Congresso se tornou um campo permanente de chantagem, refletido nas derrotas sucessivas do governo em pautas essenciais. A rejeição de Jorge Messias ao Supremo, a derrubada de vetos presidenciais e a paralisia de projetos econômicos revelam um Legislativo que opera de forma cada vez mais autônoma e disposta a impor custos elevados para viabilizar qualquer agenda governamental. Não se trata de independência institucional, mas de captura das prerrogativas do Estado por coalizões circunstanciais cujo único critério é maximizar ganhos imediatos.

Esse padrão perpassa todos os blocos políticos. Partidos que se apresentam como defensores da responsabilidade fiscal negociam cargos e emendas em troca de apoio seletivo; legendas de esquerda, direita e centro repetem a mesma prática, apenas alterando o vocabulário. A pauta econômica é moldada menos por avaliações técnicas e mais pela intensidade da pressão exercida por cada grupo sobre o orçamento. A liberação acelerada de emendas, que já vinha crescendo, tornou-se em 2026 a principal moeda de troca para salvar votações mínimas, instituindo um regime de compulsão fiscal em que o governo é forçado a gastar mais apenas para obter o direito de governar.

O ápice dessa promiscuidade surgiu quando, em poucas semanas, o Legislativo impôs derrotas em matérias estratégicas, paralisou indicações, ampliou exigências orçamentárias e inviabilizou reformas. Analistas e parlamentares passaram a descrever o Planalto como “refém” de alianças fluidas, sem coordenação estável. O Executivo, por sua vez, tenta recompor maioria ampliando concessões a grupos que se beneficiam justamente da fragilidade institucional que eles próprios ajudam a aprofundar. É o círculo perfeito: a instabilidade produz oportunidades de chantagem, que reforçam a instabilidade, que multiplicam as oportunidades.

O ponto fixo Vorcaro aparece nesse entrelaçamento de interesses. Não importa qual partido esteja no poder: o sistema converge para a mesma forma de operação. Grupos ideológicos antagônicos se alinham quando há oportunidade de extrair verbas, pressionar por ministérios, ampliar controle sobre políticas públicas ou negociar isenções e favores. A retórica muda; o padrão, não. Essa convergência estrutural elimina a diferença entre adversários ideológicos e parceiros ocasionais, formando um consenso tácito: a política é meio de apropriação, não de condução estratégica do Estado.

A consequência é profunda. A instabilidade permanente reduz a capacidade de planejamento, compromete a credibilidade institucional e transforma o orçamento em território de disputa predatória. Cada crise produz arranjos ainda mais frágeis. Cada concessão enfraquece o próximo movimento. Enquanto isso, temas centrais — reforma política, transparência fiscal, modernização administrativa — permanecem congelados, pois sua aprovação implicaria restringir o próprio poder de barganha dos grupos que dominam o processo legislativo.

O país avança, assim, para um regime paradoxal: hiperatividade congressual com deterioração funcional do Estado. As derrotas do governo em 2026 não são acidentes de rota; são expressões de um sistema que encontrou sua estabilidade na promiscuidade. O ponto fixo Vorcaro descreve exatamente isso: uma política que não progride, mas que também não implode, sustentando-se pela contínua troca de favores entre adversários circunstanciais. O Brasil permanece preso a esse equilíbrio inferior porque todos os atores que poderiam superá‑lo dependem, para sobreviver, da lógica que o mantém.

 

 

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Marcos Cintra, Doutor em Economia por Harvard, é atualmente professor titular da Fundação Getúlio Vargas e conselheiro do Instituto Atlântico

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