Homem de 35 anos tornou-se doador após consentimento familiar; coração seguiu de helicóptero a São Paulo, capital e demais órgãos foram destinados a outros municípios
Em uma operação que exigiu precisão, rapidez e articulação entre diferentes instituições, a Santa Casa de Piracicaba realizou, na manhã desta sexta-feira, 22 de maio, a captação de múltiplos órgãos para transplante. Do outro lado de cada procedimento, há um paciente que aguarda — muitas vezes há anos — por uma chance de sobreviver.
O doador foi um homem de 35 anos, cuja identidade permanece em sigilo. Em um dos momentos mais difíceis que uma família pode enfrentar, os seus escolheram transformar a dor em gesto. Com o consentimento dos familiares, foram captados coração, rins, fígado e córneas — órgãos que, juntos, têm potencial de salvar até seis vidas.
O coração foi o órgão que impôs o ritmo mais urgente à operação. Com uma janela de viabilidade de até quatro horas para o implante, ele partiu em helicóptero com destino a hospital da Capital paulista, onde o receptor já estava preparado para recebê-lo. Para garantir que o transporte ocorresse dentro do prazo, a e-DOT (Equipe Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes) acionou o setor de Transporte da Santa Casa, que contou com o apoio da Semuttran (Serviço Municipal de Trânsito e Transportes) para assegurar o trajeto até o Aeroporto Comendador Pedro Morganti com agilidade. Rins, fígado e córneas ficaram sob responsabilidade logística da OPO (Organização de Procura de Órgãos) da Unicamp, com destinação a outros municípios.
No momento em que o coração deixava o Centro Cirúrgico, os enfermeiros do setor formaram um corredor e aplaudiram a passagem do órgão. O gesto expressava o que as palavras dificilmente alcançam: uma família, no limite da dor, havia decidido que aquela perda também seria vida para outros.
A enfermeira coordenadora da e-DOT da Santa Casa, Cintia Rocha, explicou que, durante todo o processo, a equipe não apenas prepara os órgãos para captação — ela também cuida de quem fica. “Durante todo o processo a equipe mantém os cuidados ao paciente doador e atua no acolhimento dos familiares. Paralelo a isso, realiza todo o preparo para que as equipes de captação possam fazer a retirada desses órgãos e garantam que os mesmos cheguem em segurança ao receptor”, disse. Para ela, a decisão da família vai além da generosidade: “O ato é de transpor a dor da perda, entendendo a necessidade de fazer o bem ao outro.”
O médico intensivista e coordenador da e-DOT da Santa Casa de Piracicaba, Wilson Pacheco Ballassini, agradeceu o empenho da equipe multiprofissional da UTI no processo de diagnóstico, manutenção e captação. “Gratidão a toda equipe por todo empenho e dedicação em todos os processos”, salientou.
No Brasil, mais de 80 mil pessoas aguardam por um transplante de órgãos ou córneas, segundo dados do Ministério da Saúde. A maioria delas espera pelo rim — e muitas não chegam ao fim da fila. A doação só pode ser efetivada com autorização expressa da família, independentemente de qualquer registro em vida do doador. Por isso, Cintia reforça: “Orientamos que a doação de órgãos depende exclusivamente da decisão da família do paciente.”
Falar sobre doação de órgãos em casa pode ser o primeiro passo para que, em um momento de luto, a família saiba o que fazer. A decisão tomada nesta sexta-feira na Santa Casa de Piracicaba mostra que, mesmo diante da perda, é possível deixar como herança a continuidade da vida.

