Quatro mulheres na vida de Machado de Assis 

Armando Alexandre dos Santos

 

Nesta série de artigos em homenagem à figura ímpar do fundador da Academia Brasileira de Letras, seria injusto não homenagear também quatro mulheres que tiveram importância muito grande na vida de Machado de Assis, e que muitas vezes são esquecidas, ofuscadas pelo brilho excepcional do grande sol machadiano…

A primeira delas é sua mãe, D. Maria Leopoldina Machado da Câmara. Era uma portuguesa pobre, natural da ilha de São Miguel, no Arquipélago dos Açores e descendente de madeirenses que povoaram os Açores (como denota seu sobrenome Câmara). Era pobre, possuía apenas as primeiras letras e aqui, no Brasil, casou com Francisco José de Assis, um pintor de paredes mulato, filho de antigos escravos libertados. Francisco de Assis também era alfabetizado, coisa não comum na época entre pessoas tão próximas da condição servil.

Maria Leopoldina morreu cedo, deixando seu filho Joaquim Maria, órfão com apenas 9 para 10 anos. Uma irmãzinha do literato, nascida depois dele, já havia falecido, ainda em vida da mãe. De Maria Leopoldina Joaquim Maria herdou a firmeza inquebrantável e a capacidade de invulgar resiliência dos ilhéus portugueses, especialmente dos madeirenses.

Machado de Assis nunca negou a ascendência pobre de seus pais. Deles muito se orgulhou e fez questão de dedicar aos dois, nominalmente, o primeiro livro de poesias que publicou em 1864, aos 25 anos de idade: “Crisálidas”.

Depois da morte de D. Leopoldina, o pai de Machado de Assis casou novamente com D. Maria Inês da Silva, mulata, lavadeira e doceira que adotou Joaquim Maria como seu verdadeiro filho e proporcionou a ele o afeto e o amor que tanta falta lhe fazia depois da morte de sua mãe. Muito pouco se sabe dessa mulher, talvez só no dia do Juízo Final poderemos aquilatar suficientemente a importância (com certeza enorme) dela na formação do maior literato brasileiro. É justo que a recordemos aqui.

Outra mulher, também esquecida, mas que por certo muita importância teve foi D. Maria José de Mendonça Barroso Pereira, uma dama rica da sociedade carioca, viúva de um falecido senador do Império e proprietária da grande área em que se situava o Morro do Livramento. Foi ela que acolheu, generosamente, os pais de Machado de Assis, amparou-os na sua pobreza e lhes permitiu residirem em seus terrenos. Mais que isso, quando nasceu Joaquim Maria, tornou-se madrinha de batismo dele e o amparou e orientou, já na sua adolescência, nos primeiros passos de sua carreira profissional. É justo que recordemos, também, com simpatia e gratidão, seu nome.

Por fim, cabe lembrar a esposa do escritor, a portuguesa D. Carolina Augusta Xavier de Novaes Machado de Assis (Porto, 20 de fevereiro de 1835Rio de Janeiro, 20 de outubro de 1904).

Machado de Assis era muito amigo e frequentava a casa do poeta português Faustino Xavier de Novais, que residia no Rio de Janeiro. Em sua casa, conheceu sua irmã Carolina, que viera para o Brasil a fim de cuidar da saúde debilitada de Faustino. Era 5 anos mais velha que Machado, mas acabaram se casando, apesar da oposição da família Xavier de Novais, que não via com bons olhos aquela aliança com um brasileiro mestiço.

Muito culta e grande conhecedora da literatura francesa e da inglesa, exerceu ao que parece uma influência muito grande no estilo literário de seu marido, que se aprimorou e requintou notavelmente depois do casamento. Foi um longo e feliz casamento que durou 35 anos, até que Carolina morreu, deixando Machado mergulhado em uma depressão profunda e prolongada. Sua única companhia, nesses últimos anos de vida, foi uma cadelinha que ele e Carolina haviam adotado, porque não puderam ter filhos. Num soneto dedicado à memória da esposa, Machado registrou a imensa falta que ela lhe fazia:

“Querida! Ao pé do leito derradeiro, / em que descansas desta longa vida, / aqui venho e virei, pobre querida, / trazer-te o coração de companheiro. / Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro / que, a despeito de toda a humana lida, / fez a nossa existência apetecida / e num recanto pôs um mundo inteiro… / Trago-te flores – restos arrancados / da terra que nos viu passar unidos / e ora mortos nos deixa separados; / que eu, se tenho, nos olhos mal feridos, / pensamentos de vida formulados, / são pensamentos idos e vividos.”

Carolina tinha um irmão, de nome Miguel Joaquim Xavier de Novais, o qual foi casado com D. Joana Maria Ferreira da Silveira (1834-1897), viúva de Rodrigo Pereira Felício (Conde de São Mamede). Dessa forma, Machado de Assis se tornou cunhado da condessa viúva de São Mamede. Foi essa condessa que alugou a Machado, por um preço bem “camarada”, o chalé situado no bairro de Cosme Velho, no qual o escritor viveu bastante confortavelmente nos seus últimos anos de vida.

 

 

 

 

(*) Licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras, membro da Academia Portuguesa da História e dos Institutos Históricos e Geográficos do Brasil, de São Paulo e de Piracicaba.

 

 

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