A bola está com as bets

Adilson Roberto Gonçalves

 

Na época da pandemia, dei conta de que as bets haviam dominado os meios digitais e esportivos. Nos programas televisivos que conseguiram se manter, quase toda a propaganda era feita pelas bets. Inicialmente foi difícil entender como um site de apostas online poderia captar tanto dinheiro que tornasse o negócio economicamente sustentável, conceder premiações e, ainda aportar grandes somas na publicidade. A ingenuidade predominava. Somente depois dos inúmeros casos de falcatruas, de participação de pseudocelebridades que promoviam falsamente tais sites divulgando uma chance de ganho que não era verdadeira, fui entender do que realmente se tratava. Um caça-níqueis, sem a mínima chance de retorno ao apostador. Porém, quem era apenas um usuário de entretenimento foi tratado como apostador e – pior – como investidor. Sim, os da turma de carinha bonita que aparecem promovendo tais plataformas dizem que ficaram milionários por conta das apostas. Isso tem levado à ruína muita gente e não se consegue implementar uma legislação que efetivamente coiba esse tipo de crime.

Fui saber o que era o “jogo do tigrinho” com alunas do Ensino Médio, em uma viagem para realizar experimentos para seus projetos de iniciação científica. Elas me mostraram a facilidade que era entrar no “jogo” e que poderiam “apostar”. As cores, estética e sons da plataforma são muito chamativos, uma engenharia cibernética do mal. E elas haviam entendido que um dos meus gatos se chama Tigrinho em homenagem ao jogo!

Segmentos da sociedade não se calam e foram excelentes os argumentos presente em um artigo desta semana na Folha de S. Paulo intitulado “Bets: a saúde e o bem-estar dos brasileiros em jogo” contra essas bets, que estão longe de ser meras apostas, repito, pois a chance de ganhar é extremamente pequena, causando dependência, como qualquer outro vício. Além do exemplo das Filipinas, apresentado como local em que o vício no jogo explodiu, o endividamento devido às apostas já é realidade também no Brasil. Mas o lobby empresarial das bets é muito forte, haja vista que conseguiu escalar Neymar para a seleção, além de obstruir qualquer votação no Congresso que as regulamente.

Sim, também é de futebol que se fala, pois a pressão para que o jogador do Santos integrasse a lista dos convocação foi enorme. Se é para perder, que seja então com Neymar, o garoto propaganda das bets. Se ele não fosse convocado, seria a razão do mau desempenho da seleção. Agora que os clamores do mercado foram atendidos, não menos que o hexa é esperado. Qualquer coisa diferente disso serão desculpas esfarrapadas.

Haviam perguntado quais jogadores deveriam fazer parte do time titular do Brasil na Copa, mas, enquanto forem privilegiados apenas os indivíduos e não o conjunto, qualquer grupo de 11 não avançará muito no campeonato, como tem acontecido nos últimos 20 anos. Mais uma vez, apelam para a presença de garotos-propaganda de bets como se a coincidência da cor do gramado com as verdinhas das cédulas duvidosas fosse uma simbiose positiva.

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Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador da Unesp – Rio Claro

 

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