Por que Jesus priorizou a Galileia durante o seu messianato?

Álvaro Vargas

 

Existiam diversas possibilidades de escolha para a encarnação de Jesus. Poderia ter sido Atenas, onde floresciam os grandes sábios e filósofos; ou Roma, que dominava todos os povos. Poder-se-ia cogitar, ainda, Jerusalém, capital religiosa do judaísmo, onde se localizava o Templo. Entretanto, Jesus afastou todas essas alternativas, optando por nascer em Belém, uma pequena cidade na Judeia. Tal decisão estava em perfeita consonância com a natureza de sua missão. Veio ao mundo em uma gruta que abrigava animais, tendo uma manjedoura por berço, como a indicar, simbolicamente, que a humildade constitui a base de todas as virtudes.

Todavia, sua missão transcendia amplamente tais aspectos simbólicos. Seus ensinamentos e exemplos de conduta marcaram o início de uma nova era para a Humanidade. A esse respeito, o Espírito Emmanuel assinala que “começava a era definitiva da maioridade espiritual da Humanidade terrestre, uma vez que Jesus, com a sua exemplificação divina, entregaria o código da fraternidade e do amor a todos os corações”. (XAVIER, F. C. A Caminho da Luz, cap. 12). Na condição de Governador Espiritual da Terra, o Mestre Nazareno poderia ter encarnado em qualquer região, uma vez que, sendo um Espírito puro, possuía plena capacidade de superar os obstáculos inerentes ao meio em que se encontrasse. Contudo, havia também o propósito de difundir sua doutrina e, para isso, era necessário preparar aqueles que dariam continuidade à sua obra.

Considerando a necessidade de formar divulgadores de sua mensagem, compreende-se melhor a sua escolha geográfica de sua atuação. Atenas, rica em conhecimentos, mostrava-se orgulhosa e restrita ao politeísmo, constituindo terreno pouco propício à assimilação de uma doutrina essencialmente monoteísta e moral. Não por acaso, durante seu apostolado, o apóstolo Paulo fundou comunidades cristãs em diversas cidades, mas encontrou resistência em Atenas, onde foi objeto de escárnio. Roma, por sua vez, orgulhosa e embriagada pelo poder temporal, dificilmente se submeteria a uma doutrina que proclamava a igualdade essencial entre todos os homens. A mensagem do Cristo, contrária à escravidão, confrontava diretamente os interesses da elite romana, cuja estrutura social dependia desse sistema.

Quanto a Jerusalém, seus habitantes, profundamente apegados à interpretação literal da Torá e frequentemente marcados pelo exclusivismo religioso, erguiam barreiras à aceitação de idéias renovadoras. Para muitos, o Messias esperado deveria libertá-los do domínio romano, e não propor uma transformação moral. Diante desse cenário, Jesus fez da Galileia o núcleo inicial de irradiação de seus ensinamentos, escolhendo aqueles que se encontravam espiritualmente mais receptivos à tarefa que lhes seria confiada. As demais regiões de Israel foram visitadas de modo esporádico, reservando-se a Judeia para o final de seu messianato.

A Galileia caracterizava-se como uma região simples, de população humilde e, em grande parte carente de instrução formal e com muitos enfermos, mostrando-se mais receptiva à Boa Nova de Jesus. De acordo com essa idéia, ao abordar o sofrimento humano, esclarece-se o papel educativo da dor, conforme registrado por Humberto de Campos: “a carne enfermiça é remédio salvador para o espírito envenenado. Sem o bendito aguilhão da enfermidade corporal é quase impossível tanger o rebanho humano do lodaçal da Terra para as culminâncias do paraíso”. (XAVIER. F. C. Contos e Apólogos, cap. 6). Dessa forma, a escolha da Galileia revela-se profundamente coerente com os objetivos da missão de Jesus: um ambiente mais simples, menos submetido ao formalismo religioso e mais accessível às verdades espirituais. Ali, sua mensagem encontrou corações mais dispostos a ouvir, compreender e, sobretudo, vivenciar os princípios do amor e da fraternidade universal.

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Alvaro Vargas, engenheiro agrônomo-Ph.D, palestrante espírita

 

 

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