Movimentos políticos e criminosos

Adilson Roberto Gonçalves

 

Passados o feriado cívico, em que ainda temos alento para comemorar Tiradentes, e os dias antes e depois que nos fazem refletir sobre questões ambientais, desde o dia dos povos originários até o dia da Terra, a política dos palácios não para. E junto a ela, crimes e criminosos se apresentam, das mais variadas espécies.

O pré-candidato Romeu Zema fez pirraça com o STF e tomou um indiciamento talvez desproporcional. Ciro Gomes volta a ser cogitado como candidato da direita, apoiada pelo ainda vivo PSDB. O governador fluminense de São Paulo não consegue se desvencilhar da índole bolsonarista de extrema direita e se associa ao prefeito da capital em projeto que rompe com a cidade limpa e permite painéis luminosos poluidores visuais e de uma estética muito ruim. Com ironia e jocosamente pensei em Fernando Haddad no lugar de Tarcísio quando o pastor de igreja evangélica Robson Rodovalho afirmou que “precisamos de um gato na política”, em artigo para a Folha de S. Paulo (15/4), referindo-se ao experimento mental do gato na caixa de Schrödinger para dizer que a política pode ter duas respostas. Mas o artigo parecia mais o gato elétrico, de desvio para não se pagar a conta, pois, seriamente, confundir o experimento mental com uma simples percepção de ser ou não ser é típico de quem professa a fé comercial.

Por mais que tentem seguir o dinheiro para mapear a criminalidade, os escândalos parecem se esgotar em si. Querem mudar o foco do problema, transformando em terrorismo o que é crime organizado, para que os Estados Unidos tenham justificativa para intervir em nosso país, como já fazem por meios econômicos e políticos, por possuírem ventríloquos que reproduzem as insanidades de Donald Trump. Mas algo é muito falho. A operação no Vidigal, que isolou turistas em meio a tiroteio, e as informações sobre as facções, que operam na fronteira com a Venezuela, compõem um quadro idiossincrático: sabemos muito sobre o crime organizado no país e não conseguimos uma ação concreta para mitigá-lo. Áreas de influência e hierarquia interna desses grupos parecem bem mapeadas, mas falta inteligência para chegar a eles. Ou sobra conivência, uma vez que, não raro, membros das polícias estão envolvidos? Facção não é ficção.

Mesclar política com criminalidade não é novidade. E a contravenção de ontem virou as bets de hoje. Os jovens jogam desenfreadamente nas bets, tendo o “tigrinho” como modelo. As famílias se endividam nessas plataformas e metade dos usuários crê que é um instrumento de ganho ou complemento de renda! Até quando vamos continuar passivos aceitando a criminalidade das bets? A força do substituto do jogo do bicho é enorme, uma vez que seus lobistas conseguiram impedir que o recurso dos impostos pagos pelas bets fosse usado no combate às facções, envolvendo políticos de amplo espectro. São plataformas de entretenimento doentio, mas com força descomunal porque compram e financiam tudo, de esportes (todos eles) a políticos. E somos hipócritas, pois elegemos a maconha como a grande vilã do vício e da destruição das famílias.

Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador da Unesp – Rio Claro

 

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