João Salvador
O Brasil parece estar com sua âncora desregulada para enfrentar os desafios de um mar revolto de problemas. Sem rumo, sem meta adequada na esfera econômica, social e financeira. Há somente um projeto de poder e não de país. Contabiliza-se o hoje, sem se importar com o amanhã. A volta do cometimento dos mesmos erros do passado.
Já temos um rombo nas contas públicas superior a 100 bilhões de reais, de um lado não tem arrecadação suficiente e do outro, só despesas, em virtude da gastança desenfreada. Para piorar, com a aprovação da PEC fura teto, o governo pode gastar até 216 bilhões de reais e chegar a um rombo fiscal gigantesco. Desdenha-se a “curva de Laffer”, a que indica a relação entre a alíquota de imposto cobrada pelo governo e a capacidade de arrecadação desse tributo. Com o aumento dos impostos, haverá um efeito cascata no aumento dos preços dos alimentos e redução da arrecadação, porque o consumidor deverá optar somente pela compra dos produtos básicos. Com os gastos exorbitantes do governo nas viagens ao exterior e o inchaço da máquina pública pelo grande cabide de emprego que se fixou no governo, as contas não fecham.
Os investimentos estrangeiros caíram 36% nos últimos meses, com a tendência a cair ainda mais, porque os gringos já não confiam no crescimento de nossa economia. Baseiam-se na possibilidade da alta inflacionária, e a desvalorização do real pela subida do dólar. A imagem do Brasil no exterior já não é das melhores e piora a cada vez que seu representante discursa nas reuniões de cúpulas.
A insegurança jurídica também é preocupante, uma Suprema Corte política e arbitrária, que, quando criticada, toma a decisão de denunciar, investigar, prender e julgar, sem respeitar os graus de competência de outras instâncias. “A pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário, contra ela, não há a quem recorrer”, disse Rui Barbosa. A culpa é sempre dos que cometem supostas atitudes antidemocráticas e golpismo. Daí vêm as expressões abomináveis de ativismo ideológico: “Perdeu, Mané”, “nós derrotamos o bolsonarismo” e “a eleição não se ganha, se toma”. Coibir, ameaçar ou prender quem contesta, é o mesmo que impedir o cidadão de exercer sua cidadania, a sua liberdade de expressão, a democracia. “Discordar, sim, divergir, sim, descumprir, jamais, afrontá-la, nunca. Traidor da Constituição é traidor da Pátria”, como bem disse Ulysses Guimarães.
Entre os poderes, legislar está no âmbito do Congresso e não do Supremo. É inadmissível insistir em questões que envolvem o marco temporal, o aborto, a descriminalização do porte de drogas, a volta do imposto sindical, a relativização das propriedades privadas e a ideologia de gênero. A decisão deve ser do povo, através de seus representantes, os parlamentares, a quem conferiu o seu voto. Nenhum ministro foi votado para a cadeira de excelência, nem lhe foi delegado o poder para adulterar a Constituição. Mas parece que os parlamentares acordaram e estão se movimentando contra o ativismo judicial.
Dá-se a impressão que o Brasil caminha a passos largos para um regime de exceção, de provocação dos caos, para ampliar o grande projeto de poder. Muitas afirmações desafiadoras, cínicas e demagógicas e socialistas, acobertadas por um consórcio da mídia doutrinada, em troca dos favores do governo. Mas ainda existem jornalistas sérios, corajosos, que praticam o jornalismo informativo e não opinativo.
E assim caminha o Brasil, igual a uma nau sem rumo, de muita doutrinação e de futuro incerto, pela incompetência ou falta de capacidade administrativa da equipe náutica e o mar não está para peixes. Mas, o importante, é que tempos difíceis forjam o surgimento de homens fortes, pela ativação do senso crítico, com o uso da razão. Como diz o provérbio português: “zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades”.
_____
João Salvador, biólogo