As muitas mortes de Mãe Bernadete

Sergio Oliveira Moraes

Caro Ivan, tenha paciência comigo. As violências muitas, as mortes, me trazem de volta ao tema. Que loção? Que vidro aberto de loção abafaria o mal cheiro que é desde sempre? Preciso falar sobre Mãe Bernadete.

Fui apresentado a ela nos noticiários sobre seu assassinato. 72 anos, assassinada na última quinta-feira, dia 17 – 12 tiros. Mulher negra, líder quilombola, Ialorixá, dona de uma força imensa. Se ao menos ela se calasse, se ao menos não lutasse pelo direito ao seu culto, se ao menos não lutasse pelo título para as famílias assentadas no território do quilombo Pitanga dos Palmares, do qual era líder. Talvez estivesse viva. Por que não se calou?

Bernadete Pacífico (sobrenome duplamente sugestivo), por que não se aposentou quando a “assassinaram”, junto com seu filho Binho, também líder, há seis anos? Me desculpe Mãe Bernadete se junto as duas mortes. Se simplifico, se sou curioso, se insisto nas perguntas. Mas por que preferiu continuar lutando pelo direito à posse da terra, orientando as pessoas, marcando exames médicos, distribuindo cestas básicas, organizando manifestações culturais? Por que, se os ataques aos terreiros e lideranças religiosas se intensificaram após 2017? Talvez estivesse viva. Por que não parou de lutar?

Ivan, de onde essa senhora tirava forças para enfrentar o preconceito, a intolerância à cor da pele, à religião, os grileiros, a fome, a dor, as mortes tantas? Mãe Bernadete morreu em um tempo em que precisamos de um dicionário para nos darmos conta do machismo nas palavras e expressões. Precisamos de uma Promotoria, uma Delegacia Especial, para combater a violência contra a mulher, contabilizada em minutos. Ainda não compreendemos a laicidade do estado brasileiro. A violência contra jovens pobres e negros é sinônimo de barbárie. Que os quilombolas têm direito à posse, assim como os povos originários têm direito à demarcação de suas terras, que não é favor, é justiça. De onde, Ivan, ela tirava forças?

Meu caro, finalizo lembrando-o da “Missa dos Quilombos” – leia os poemas, escute. Creio que Mãe Bernadete ficaria feliz com a lembrança. Do poema, Em Nome do Deus, alguns versos salteados:

“Em nome do Deus de todos os nomes
-Javé/Obatalá/Olorum/0ió./ Em nome do Deus, que a todos os Homens/nos faz da ternura e do pó./ Em nome do Pai, que fez toda carne,/a preta e a branca,/
vermelhas no sangue./ Em nome do Povo que espera,
na graça da Fé,/à voz do Xangô,
o Quilombo-Páscoa/que o libertará.”

Descanse em paz Mãe Bernadete.

 

Sergio Oliveira Moraes, físico e professor aposentado Esalq/USP

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