A vida como simulacro: diante do experimento Casamento às Cegas

Adelino Francisco de Oliveira

 

As escolhas mais definitivas na vida, mais essenciais e carregadas de significado, como o relacionamento amoroso, por exemplo, podem ser decididas a partir de um experimento social, que dispõe os participantes em encontros aleatórios, forjando conversas gravadas para um programa de entretenimento da televisão? Aliás, a escolha de um companheiro, de uma companheira afetiva, a escolha daquele ou daquela com quem a vida amorosa e afetiva será compartilhada, pode ser algo realizado com a intenção primeira de divertir a plateia e os telespectadores? Qual o limite ético para se produzir um espetáculo e alcançar grande audiência?

O programa Casamento às Cegas, exibido na plataforma Netflix, não deixa de provocar um certo incomodo ético, ao relativizar, de maneira tão direta, o que em tese a sociedade ainda demarca com a aura da sacralidade. Não há nenhum conservadorismo nessa análise, apenas uma constatação: o que acontece quando as relações humanas mais significativas passam a serem reduzidas a um mero jogo, onde tudo é um simulacro?

A função da casamenteira é ocupada e substituída pela equipe técnica de produção do programa televisivo, prometendo aos participantes projeção social e fama, mediante a exposição midiática e milhares de seguidores nas redes. Mas tudo não passa de um simulacro. O ambiente que é um estúdio de televisão; os encontros forjados; as conversas às cegas previamente gravadas; a produção que envolve um primeiro encontro; a troca de beijos; o pedido de casamento; a lua de mel; a vivência em um apartamento, imitando o cotidiano de um casal; o momento apoteótico do sim ou do não, em uma encenação que lembra a cerimônia de um casamento, com seus símbolos, trajes e convidados.

O casamento – e também a união estável – é um ritual de passagem, que pode até ser considerado por alguns seguimentos sociais como demodê ou mesmo extemporâneo. De qualquer maneira o rito do casamento ainda carrega símbolos e significados muito profundos. Do casamento surge a noção social dos laços de família, parentalidade e afetividade. No horizonte do casamento está a perspectiva do compartilhamento da própria vida, em uma união concebida como plena, cheia de promessas e expectativas de futuro em comum.

Uma das questões suscitadas pelo Programa Casamento às Cegas é justamente sobre o lugar do amor na construção de um relacionamento íntimo. O amor pode ser substituído e relativizado pela conveniência de um relacionamento que promete projetar a vida para o tão cobiçado holofote da fama? Existe, de fato, o amor ou é possível se definir a companheira ou o companheiro a partir de critérios quase que matemáticos, anotando frases e reações pinçadas de uma conversa fortuita, cronometrada, gravada e não presencial em um ambiente superficial? O ponto fundamental que se desdobra do programa Casamento às Cegas consiste em entender quais as consequências para a sociedade em seu conjunto quando as relações humanas e seus rituais mais sacralizados passam a ser reduzidos a simulações e simulacros.

A espetacularização da vida não é um tema novo. Mas a ideia de que tudo não passa de uma mera performance, de uma representação cênica e teatral é algo que deve trazer inquietações e levar a sociedade à reflexão ética. As relações humanas precisam resguardar uma dimensão do que é ainda considerado puro, transparente e verdadeiro. O relacionamento afetivo, a construção do cuidado mútuo e coletivo, a parentalidade são elementos construídos histórica e culturalmente, como também compõem a essencialidade humana, a espiritualidade e o ser no mundo.

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Adelino Francisco de Oliveira, professor do Instituto Federal de São Paulo, campus Piracicaba; Doutor em Filosofia e Mestre em Ciências da Religião; [email protected]

 

 

 

 

 

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