Cinco e meia. O atendente atrás do balcão da farmácia espera pelo atendente que virá para rendê-lo. Na frente do balcão, eu espero para ser atendido pelo atendente que espera pelo atendente que virá para rendê-lo. Pela porta de entrada da farmácia o outro atendente, que vai render o atendente que eu aguardo que me atenda, chega. O atendente que deve me atender confere o relógio, (cinco e meia), e por fim me atende.
O atendente que chega vê a cena e entende que está na hora de render o atendente que me atende – e se apressa (há pressa?). O meu atendente olha atentamente para o atendente que o entende e que parece correr ainda mais rapidamente para dentro da farmácia, sumindo quase de repente pela porta rente que range e repica renitente. O escuro da madrugada começa a se romper adverbialmente. Lembro-me da melodia de “O Amanhecer”, da Peer Gynt Suite de Grieg. Nada me parece mais profuso, difuso e tediosamente adverbial do que a manhã em despertar.
Na minha cabeça o mundo reverbera, há preocupação constante e urgência insistente: haverá tempo de chegar com o remédio pertinente? Haverá alívio para dor tão resistente? Na cabeça do atendente que me atende lentamente o mundo se alonga nos minutos que lhe faltam para deixar o seu batente: haverá alívio para seu cansaço sem remédio quando o tempo – felizmente – para ele se fizer suficiente? Num outro plano aparente, é só na cabeça do outro atendente – que chega apressadamente para render o atendente que me atende molemente – que o mundo se inicia realmente. Mas haverá nele também vontade para começar mais um novo começo novamente?
Meu atendente me entrega o remédio, friamente. O outro atendente se põe pronto. Eu agradeço, vagamente, e saio. Não é mais a melodia ascendente de “O Amanhecer” que soa em meus ouvidos. Agora, é o monótono cadenciado e repetido do Outono de Vivaldi, com seu compasso de chumbo escondido entre nuvens. Na rua, o lado de fora da farmácia é um frescor que se estende largamente. No lusco-fusco que anuncia o dia, a vida se constela como um mosaico diferente.
Kafka parecia temer a manhã. Talvez, por isso, prenunciou em seus livros mais conhecidos a ideia de que a manhã é o momento mais temeroso do dia – pois a partir dela tudo pode acontecer e um novo ciclo se inicia. Em “O Processo”, Senhor K. vê, ao pé de sua cama, ao acordar, a presença de seus perseguidores. Em “Metamorfose”, é ao acordar que Gregor Samsa se vê metamorfoseado num inseto asqueroso. Meio Kafka no sentir do dia, ouço a voz de Samsa mesclada à melodia de Vivaldi e de Grieg.
Duas moças passam num cooper que imagino cotidiano. Riem de qualquer coisa docemente. Olham para mim sem saber que o mundo quase explode em minha mente. Na esquina, quase trombam com um homem que passeia com seu cão – que se assusta. Nos gestos que desfazem, não há o tempo de ir nem de chegar. Mais do que isso, em seus rostos o tempo, ao que parece, é remédio inocente.
Intento entrar em meu carro. Melhor é seguir a cor do dia que se abre. As moças somem-se no final do quarteirão. O cachorro, para o dono, abana o rabo fielmente. Um motoqueiro faz gritar o motor de sua moto. O atendente da farmácia surge porta afora. Confere as horas – (quase seis) – e faz o nome do pai religiosamente. Entro em meu carro, já sem tanta urgência. Não há mais dores ímpares? Os remédios sobre o banco talvez não sejam mais capazes de aplacar o mal que afeta o mundo – o meu mundo. Nos ouvidos, “O Amanhecer” de Grieg volta com toda força.Na verdade verde do semáforo, mergulho – desejando cama – claridade adentro.
Talvez Kafka esteja certo. A olhos fugidios, a manhã – manhosa – mente.
Alê Bragion é doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp e cronista de “A Tribuna” desde 2017