Alvaro Vargas
Quando questionado pelos seus discípulos o porquê de não terem conseguido curar um menino que sofria de uma obsessão espiritual, Jesus esclareceu que “nada será impossível para vocês, mas esta espécie só sai pela oração e pelo jejum.” (Mateus, 17: 18 -21.). As religiões institucionalizadas têm, geralmente, interpretado essa citação evangélica apenas em seu sentido literal. Embora a oração seja fundamental e não existam dúvidas a este respeito, o jejum, conforme mencionado, não está relacionado com a abstenção de alimentos, mas com a nossa transformação moral. Jesus, sem desrespeitar as tradições judaicas, buscou orientá-los para tirar um melhor proveito do jejum. “Quando jejuarem, não se mostrem entristecidos como os hipócritas, que desfiguram os seus rostos. Em verdade vos digo que estes já receberam a sua recompensa. Quando jejuarem, devem ungir a cabeça, e lavar o rosto, para não parecerem aos homens que jejuam, mas apenas a Deus. Ele, que nos vê, vos recompensará publicamente.” (Mateus, 6: 16 -18.). O Mestre Nazareno condenou a exibição desnecessária daqueles que aparentemente jejuavam, da mesma maneira que o apostolo Paulo, que, ciente da hipocrisia existente, na prática do jejum, disse: “tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens.” (Colossenses, 3:23). Com relação à sugestão de Jesus, em “ungir a cabeça”, isso não se deve interpretar como o simples ato de derramar óleo sobre o corpo, e sim, um compromisso com Deus, visando superar as iniquidades.
Allan Kardec (O Livro dos Espíritos, questões 720 e 726), ao questionar os Espíritos sobre o mérito das expiações voluntárias, foi esclarecido que os sofrimentos naturais são os únicos que nos elevam (se recebidos sem revolta), porque vêm de Deus. Os sofrimentos voluntários de nada servem, quando não concorrem para o bem de outrem. Mérito existe na assistência aos necessitados. Conforme os preceitos do Cristo, sofrer alguém voluntariamente, apenas por seu próprio bem, é egoísmo; sofrer pelos outros é caridade. Entretanto, a compreensão desse ensinamento não foi imediata, devido ao atraso intelecto moral da Humanidade. O Espírito Emmanuel (XAVIER, F. C. A Caminho da Luz, cap. 15), cita que “os cristãos, não tiveram de início uma visão do campo de trabalho que se lhes apresentava. Não atinaram que, se o jejum e a oração constituem uma grande virtude na soledade, representam uma virtude mais elevada quando levados a efeito no torvelinho das paixões desenfreadas, nas lutas regeneradoras, a fim de aproveitar aos que os contemplam. Não compreenderam, imediatamente, que esses preceitos evangélicos, acima de tudo, significam sacrifício pelo próximo, perseverança no esforço redentor, serenidade no trabalho ativo, que corrigem e edificam simultaneamente. Retirando-se para a vida monástica, povoaram os desertos na suposição de que se redimiriam mais rapidamente para o Cordeiro. Uma ânsia de fugir das cidades populosas fazia então vibrar todos os crentes, originando os erros da idade medieval, quando o homem supunha encontrar nos conventos as antecâmaras do Céu. O Oriente, com os seus desertos numerosos e os seus lugares sagrados, afigurou-se como caminho de todos quantos desejavam fugir dos antros das paixões. Só a grande montanha de Nítria chegou a possuir trinta mil eremitas, exilados do mundo e dos seus prazeres desastrosos. Entretanto, examinando essa decisão desaconselhável dos primeiros tempos, somos levados a recordar que os cristãos se haviam esquecido de que Jesus não desejava a morte do pecador”. Para o homem intelectualizado e dinâmico do século XXI, o jejum deve ser interpretado como uma vivência saudável em todos os aspectos da vida, mental, espiritual e físico, livre de vícios, e a construção de relacionamentos interpessoais harmônicos e felizes.
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Alvaro Vargas, engenheiro agrônomo-Ph.D., presidente/USE-Piracicaba, palestrante e radialista espírita