PORQUE AMANHÃ É SÁBADO –   Mátria-minha

 

Mátria-minha, minha mãe, me leve. Me pegue no seu colo, me ponha em seu seio feito de liberdade, me nine em seu berço esplendido e fundo onde em sonho me deitava sem receio ao som do mar e à luz do céu profundo. Saudade de ser seu, só seu, ó minha mátria-mãe gentil. Saudade de me cobrir com seus lençóis verde-amarelos sem me sentir enojado, sem me sentir enjoado a ponto de vomitar – minha mãe, ó minha mátria-mãe, vem me salvar.

Mostra-me que os teus filhos – teu povo heroico – apenas andam distantes, apenas andam perdidos, delirantes. Fala-me que eles, um dia, então, buscando a tua mão na dor, vão se reencontrar com a paz e com o amor. Depois, canta teus cantos de esperança, Mátria-mãe Florão da América – pois ouvir teus cantos nunca foi tão preciso e tanto. Sopra em mim o som das tuas matas, sussurra em meus ouvidos os teus ventos-florestas, teus encantamentos nativos, e promete: promete carinhosamente que vai se levantar do teu sono de pedra-continente e me salvar.

Mátria gigante, impávida que impassível, mater dolorosa e estática, mátria-colosso adormecido sempre em eterno despertar – desperta! Ó, mátria!  Desperta e vem me salvar! Vem me salvar desta pátria-patriarca violenta e burra. Desta pátria-fera masculina, racista, fascista, assassina. Renego por três vezes a essa pátria-bruta! Te renego por dez vezes, por mil! Te renego porque não a quero como minha pátria, porque sei que não é essa a pátria que me pariu.

Meu país é outro, bem outro, o meu país – eu sei. O meu país é feminino e feito de terra sob o Cruzeiro do Sul em luz. Meu país é terra-mãe e já teve nome de mulher e um dia se chamou Terra de Vera-Cruz. Não. Não é minha essa pátria-dura tão mesquinha sempre a fazer o mal, essa pátria-Medeia a matar e a engolir as crias em cadeia nacional.

Quero de volta a mátria-mãe de minhas ilusões, de meus delírios de amor-eterno feito de símbolos falsos, mas que ao menos nos deleitavam em quimeras de nação. Ai, vontade louca de voltar a amar o meu país de novo! Vontade monumental de poder gritar “liberdade ainda que tardia”!  Ah, minha mãe-país, minha mátria-mãe vem me salvar antes que acabe o dia, vem me fazer de novo achar que ainda é possível aqui viver e ser feliz.

(Perdoe-me, Vinícius, mas quero sim a minha mátria-mãe gentil. Quero-a como ela é em essência – sem lábaro estrelado, sem a indecência dos canhões e das gentes fardadas no poder aos borbotões. Quero-a humana que realmente gentil, quero-a quente feito ninho colorido, quero-a linda de novo em céu de anil).

Ó, mátria-minha, minha mãe, saudade! Saudade de bater em peito honrado e saudar-te com brado retumbante entre outras mátrias mil dizendo: és minha mátria-mãe, salve, salve! És meu amor, o nosso amor, Brasil!

Ó, mátria-mãe que de lágrima e dor se fez.

Ó, Mátria-minha, minha mãe, quando se dará o teu talvez?

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Alexandre Bragion, cronista deste matutino desde 2017.

 

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