Reynaldo Porchat e os primórdios da USP

José Renato Nalini

 

 

A Universidade de São Paulo é uma das glórias paulistas, antes de ser legítimo orgulho brasileiro. Deve-se a Armando de Sales Oliveira converter em realidade o sonho bandeirante e criar a Universidade pelo decreto 6.183, de 25.1.1934. Feliz a escolha do primeiro Reitor, o Professor Reynaldo Porchat, empossado no cargo pelo então Secretário da Educação, Christiano Altenfelder Silva, em sessão do Conselho Universitário realizada a 6.06.1934.

Ele era festejado Mestre da São Francisco. Ernesto Leme o descreve como “alto, elegante, extremamente simpático, entrava pontualmente na sala n. 2 do velho edifício às onze e um quarto, subia à cátedra e, feita a chamada, que fiscalizava rigorosamente, começava a preleção. Os que tiveram a fortuna de assistir às suas aulas, delas contam maravilhas. De tal sorte que, refere Soares de Melo, determinado bacharel, ao sair um dia de conferência aqui proferida por Enrico Ferri, exclamou: ‘Ó que saudades das aulas do Dr. Reynaldo Porchat”.

Coube a Porchat a hercúlea tarefa da estruturação da Universidade. O decreto federal 24.102, de 10.4.1934, transferiu para o Estado de São Paulo a velha Faculdade de Direito, criada pela Lei de 11.08.1827, para integrá-la à Universidade. Na História da Universidade de São Paulo escrita por Ernesto de Souza Campos, Leme afirma que “foi, em verdade, ao se inaugurar em São Paulo o curso jurídico, tão cheio de tradições, que nasceu a grande Universidade, instituída por Armando de Sales Oliveira cerca de cento e sete anos depois”.

Foram dez os institutos de ensino e pesquisa que formaram inicialmente a USP. Um dos mais relevantes a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, de onde saiu o pensamento mais criativo da intelectualidade brasileira.

O primeiro Reitor foi buscar na Europa os mais prestigiados cérebros, para colaborar com a formação de docentes nacionais. Dentre eles, Gleb Wataghin, da Universidade de Turim, que colaborou com o pioneirismo da USP no estudo da física nuclear e formou pensadores de grande reputação internacional.

Reynaldo Porchat era um entusiasta. Em discurso proferido por ocasião de jubileu professoral, relata suas emoções nesse período: “Eu ainda sinto as alegrias que me rejuvenesciam como uma florescência emanada do contato feliz cm que pude gozar de convivência santa com os eminentes mestres de todas as escolas superiores, e fruir o doce convívio proveitosíssimo nas sessões do Conselho Universitário. Além das inovações introduzidas com a criação do novo instituto, multiplicaram-se as visitas de alto valor intelectual, da Europa e da América, e eu tive a feliz oportunidade, na qualidade de Reitor, de apresentar-lhes as saudações da Universidade”.

Em sua reitoria as providências iniciais para a construção da Cidade Universitária. A Congregação da São Francisco foi contrária à transferência da Faculdade para a Cidade Universitária. Consta da ata da terceira reunião da Comissão encarregada de estudar a localização do Campus, os motivos dessa recusa: “Explica o professor Leme os motivos que levaram a Congregação a opinar desse modo, dividindo-os, segundo a sua ordem, em sentimentais e jurídicos. Os de ordem sentimental têm origem na tradição centenária da Faculdade e os de ordem jurídica, no seguinte: a cessão do edifício ao Governo Imperial, pela Ordem de São Francisco, foi feita com a condição irrevogável de ser o mesmo aplicado, única e exclusivamente, ao funcionamento da Academia; e, além disso, quando transferiu a Faculdade de Direito ao Governo Estadual, com todo o patrimônio da mesma, fê-lo o Governo Federal – decreto 24.182, de 10.4.1934 – impondo a esses bens a cláusula de inalienabilidade e devendo os mesmos reverter à União, quando aplicados a fim diferente daquele a que se destinavam”.

Essa a razão da permanência das Arcadas no centro histórico da pauliceia, mais consistentes do que a versão de que foram os acadêmicos da São Francisco os responsáveis, na corrente narrativa do gesto de impedir as pedras fundamentais. Quem já não ouviu falar em “quantas pedras enterrarem, tantas pedras arrancaremos”?

Reynaldo Porchat foi membro fundador da Academia Paulista de Letras, ocupante da Cadeira 20, e foi ele quem escolheu o poeta Ezequiel Freire para seu patrono. Hoje essa Cadeira é ocupada pelo ex-Presidente Michel Temer, que sucedeu a Renata Pallottini, ambos ex-alunos da São Francisco.

José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove, presidente da Academia Paulista de Letras (APL); foi presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo

 

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