Araruna anarê

 

Camilo Irineu Quartarollo

 

Há uma canção dos indígenas Parakanã, do Pará, mui cantada entre os que desejam uma Amazônia restaurada. O amor dos indígenas e mártires da floresta viva é maior que a maldade humana. A floresta há de se levantar e estender seus galhos às ararinhas. Araruna anarê, in’y keu’y köwaná, Araruna anarê’, cantava Bruno Pereira antes de ser morto.

Quando o cardeal Hummes chegou à Igreja São Judas de Piracicaba-SP, em 2019,para falar sobre o sínodo da Amazônia ouviam-se gritos ao fundo do recinto e viam-se cartazes ofensivos ao visitante. D. Cláudio surgiu serenamentea falar, mesmo no cansaço de sua alta e douta idade,discorreu lindamente sobre o ecossistema e dos nossos rios voadores. Soube depois que nas inúmeras entrevistas do prelado nos mais variados auditórios havia grupos orquestrados para constrangê-lo.

O lema de um honrado militare desbravador era: “morrer se for preciso, matar nunca”. Desde o Marechal Rondon os indígenas sempre foram parceiros pacíficos damata e dos rios vivos.

Contudo, umcapitão de exército, cujos apoiadores atacavam D. Cláudio, ameaçou: “Se eu for eleito, vou dar uma foiçada na Funai, mas uma foiçada no pescoço”. Nafoiçadase decapitaramórgãos históricos de proteçãoambientale de fiscalização.A FUNAI, conta com alguns “gatos pingados”, e pasmem, são desautorizados ao fazerem autuações contra poderosos.Num pedido noturno por rádio para autuar ação ilegal perto de uma aldeia indígena, e por esta alertada em vão, havia na base dois guardas e uma lancha sem farol para deter e multar os criminosos contumazes. Ficou evidente o esfacelamento do órgão de proteção, aliás com suas bases indefesas atacadas por garimpeiros e outras gangs que, ainda, ao passarem armados de barco fazem adultos e crianças de alvos.As forças do Estadonão inibem o crime organizado de pescas abusivas, nem o do tráfico das madeiras nobres ou de animais exóticos trazidosao meio urbano, saudáveis ou com vírus desconhecidos. Tudo vai numa foiçada só, na porteira aberta pelo Estado de um gado que passa atropelando a nação.

Recentemente, os indígenas e ribeirinhos encetaram buscas agoniantes no Vale do Javari pelos amigos desaparecidos. Encontrarama bolsa e pertences de Bruno e Phillips, indicando possíveis locais da desova dos corpos. Então o governomostrou em rede nacionala versão exitosa de resgate dos restos mortais, alvejados, mutilados e ocultados, mas sem mandante do crime. Ora, a BBC de Londres questionouna entrevista a ausência dos ribeirinhos e indígenas batedores, estes que talvez sejam as próximas vítimas. A mídia questiona ainda quem são os mandantes, que, ocultos da Justiça, continuarão na senda do crime.

Toda a imprensa mundial acompanha, atônita e atenta, mortes de indígenas, ribeirinhos, ambientalistas eprofissionais da área. A Amazônia ainda encanta! “Araruna anarê, in’y keu’y köwaná, Araruna anarê”, para mim e para você!

 

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Camilo Irineu Quartarollo, escrevente, escritor, autor de crônicas, historietas, artigos e livros

 

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