‘Maiá o Juda’

Camilo Irineu Quartarollo

 

Étradição cutucar o boneco suspenso no poste, derrubá-lo, chutá-lo, como desforra pela traição a Jesus. Mestre Elias dos bonecos começou fazendo esses judas, mas os consertava depois e lhes dava novo caráter com suas silhuetas vigilantes nas margens do rio Piracicaba.
Se o sinédrio não cooptasse Judas, cooptaria outro. Talvez o boneco fosse o confuso Pedro ou o incrédulo Tomé! Todavia, na escala de ambição Judas era o mais indicado. João Evangelista acusa esse de ladrão, que roubava dinheiro da bolsa do grupo.
A mentalidade de Judas e de outros sobre o Reino era semelhante. Poucos tinham ou têm a real percepção do que seja o Reino. Algumas vezes até Pedro tentou fazer de Jesus rei. O mestre não quis bajulação nem conivência com injustiças! Judas, como Pedro, queriam os romanos expulsos e um reino de poder messiânico, talvez ditadura.
Muitos dizem que Jesus era “apolítico”, como se alguém o pudesse ser. Ora, não era eleito ou da política partidária, mas como cidadão e líder não fugiu das questões políticas.
Com o denário na mão Jesus diz “deem a César o que é de César”. Ou seja, a moeda romana servia para comprar o trigo do Egito, os cedros do Líbano, a riqueza de Israel. Jesus vê a riqueza nacional como direito do habitante e não simplesmente item de troca por moedas, mas de uso precípuo da comunidade. O trigo e o pão não são meras mercadorias.
Atualmente há muita gente indignada com os superfaturamentos, compras de preços alterados para esconder os roubos das licitações fraudulentas, corrupção da administração pública. Muitas vezes, não sei se é indignação com a fraude ou inveja das vultosas somas desviadas. Já ouvi gente criticando, mas depois dizendo “se eu estivesse lá faria a mesma coisa”.
Os sacerdotes perceberam que Jesus era uma ameaça. O mestre não negociava questões de justiça por mais duras que fossem. Era mais fácil cooptar Judas com um pouco de moedas de prata ou ouro. A opção Judas foi a melhor engendrada. Cooptá-lo por algumas moedas, incentivá-lo e, no futuro, dar-lhe algum cargo.
São notórias as mensagens de Jesus, as idas e vindas às sinagogas, povoados e templo como bases nacionais e de tradição, mesmo sob domínio romano, onde se rogavam ardentemente o “venha a nós o vosso reino”.
Os fariseus como José de Arimateia, Nicodemos e outros que se opuseram às posições político-religiosas de Caifás tiveram uma luta renhida e nem sempre reconhecida. Judas não tem a trajetória nem a experiência das negociações políticas e a sua própria ambição o consumiria num baixo clero.
‘Maiá o juda’ é uma brincadeira também em Piracicaba, mas depois eles voltam nas barrancas do rio transformados por Elias, inclusive no caráter. O artista mudava seus bonecos, de judas a guardiães do patrimônio. Mas como mudar pinóquios?
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Camilo Irineu Quartarollo, escrevente e escritor, autor de crônicas, historietas, artigos e livros

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