Que prefeito é esse?

Edmeia Santos

 

Prezado Luciano Almeida! Ouvi sua deselegante fala na entrevista que deu a uma rádio, pois bem, professor na pandemia não trabalhou né …. Não sei o qual você está se referindo, pois a mim e aos meus excelentíssimos companheiros de profissão nos desdobramos.
Não sei se o senhor obteve a oportunidade de fiscalizar a sua jurisdição, mas muitos profissionais tiveram que parcelar notebooks, celulares, impressoras, planos de internet entre outras necessidades, pois nossa prefeitura nos exigiu que déssemos continuidade aos projetos políticos e pedagógicos, sem se quer ter um pingo de humanidade em se preocupar com as condições financeiras e psíquicas que estávamos enfrentando em uma pandemia.
Tivemos que abrir as nossas portas de uma forma virtual para acolhermos as nossas crianças e suas famílias, que também estavam passando por momentos dolorosos perdendo seus entes.
Quantos relatos ouvimos… professora, perdi meu pai, perdi minha mãe, perdi meu irmão, perdi meus avôs, perdi minha família…
Quantas crianças fomos atrás para saber o que estava acontecendo, o porquê não estavam nos retornando com suas devolutivas?! E a resposta na maioria das vezes era, estamos sem celular, sem internet, sem dinheiro…E aí, fazíamos milagres para atender essas crianças de forma diferenciada, mas com efetividade no ensino.
Quantas vezes arriscamos a nossa saúde em meio a surto mundial de um vírus ainda desconhecido, indo nas unidades escolares para darmos atendimento à comunidade, entregamos uma vergonha de “kit alimentar”, eu escrevo vergonha, porque é isso que sentíamos quando entregávamos às famílias.
Não sei o que é trabalho para sua visão, mas nós servidores desta rede, trabalhamos e muito. Fizemos o impossível diante do nosso alcance, inclusive, fizemos o seu papel no momento avassalador em nossa sociedade, talvez, seja do seu “desconhecimento”, mas, é uma das Políticas Prioritárias na Constituição Federal a qual o sr. possivelmente jurou cumprir quando tomou posse como prefeito eleito.
Gostaríamos muito que o senhor parasse para pensar nas diversas famílias que fomos visitar porque se encontravam em situação precária. Fizemos vaquinhas, mutirões, arrecadações de alimentos e roupas, e até acompanhamento médico de algumas crianças em estado de vulnerabilidade garantindo assim, o princípio da prioridade absoluta descrito no art. 4º no Estatuto da Criança e do Adolescente.
Ah, mas os professores não trabalharam nessa pandemia…
É, senhor prefeito, na verdade no momento em que a sociedade piracicabana precisou do senhor, quem não trabalhou foi você, porque nós servidores na área da educação estávamos online vinte e quatro horas nos grupos recebendo informações tanto da Secretaria Municipal de Educação quanto das famílias das crianças, incluindo sábado, domingo e feriados.
Não trabalhar na pandemia foi deixar quatrocentos e noventa quilos de carne estragando por incompetência, onde poderia ter sido doada às crianças que necessitavam, não trabalhar é oferecer leite em pó sem gosto algum, sem chocolate, sem açúcar, sem café, com um pedaço de banana para as nossas crianças desjejuarem. Não trabalhar, é não oferecer condições de trabalho ao professor que tem que trazer farinha de trigo, sal e óleo de casa para fazer massinha porque não tem materiais pedagógicos no quarto mês do ano. Não trabalhar, é não enviar alho e cebola nas escolas porque não tem e os merendeiros estão trazendo de suas casas para preparar a comida. Não trabalhar, é não tapar os buracos, que a própria população está sinalizando e jogando entulho para não ocorrer mais acidentes. Não trabalhar, é deixar os matos tomarem conta das calcadas e munícipes estão carpindo para prevenir a infestação de escorpiões.
É vergonhoso sim o que está querendo alegar, pois trabalhamos muito além. O que senhor deveria fazer é, ao invés de querer descontar, reembolsar as nossas horas extras que já deixamos em haver para sua gestão.
Nós, servidores públicos, trabalhamos com seres humanos, somos humanos e a sua ameaça não é apenas de descontar os dias reivindicados, é muito além…. É destituir toda uma história construída no nosso município nos tratando como incapazes, uma massa insana, ausente de dignidade e caráter, e tal postura é totalmente incompatível de um gestor público que gerencia uma cidade como esta, encontrada em diversos livros de história do Brasil.
Antes de encerrar esta carta sr. Prefeito Luciano Almeida, ressaltamos que a Vossa VAIDADE desconhece muitos Parâmetros, principalmente do Estatuto da Criança e Adolescente no que se refere à Educação, violando também, direitos e garantias previstos para a dignidade das nossas crianças e ferindo os Princípios da Administração Pública, por isso, os servidores municipais que se encontraram em estado de greve, na verdade trazem uma demanda na urgência de criação e implementação de novas políticas públicas para atender o tão alarmante cenário de vulnerabilidade e desleixo social que nos encontramos, pois, o senhor como representante executivo municipal está destruindo 254 anos na história política de Piracicaba.
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Edmeia Santos, professora de Educação Infantil

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