Anchieta: o novo Adão?

José Renato Nalini

 

Era assim que o Padre Simão de Vasconcelos chamava o jovem que chegou no século XVI ao Brasil, terra inóspita em que ele se aproximou dos índios e falava com os animais. Não se falava em ecologia e ambientalismo e ele já vivia em comunhão com o Criador e com a natureza.
Por que “o novo Adão?”. Porque ele era inocente como criança e se maravilhava com o novo mundo. Não foi só ele. Os que chegaram na época do “achamento”, se extasiaram com a exuberância da mata, das orquídeas, dos pássaros multicoloridos. Muitos acreditaram que isto era o Éden redescoberto.
Anchieta vinha com outros propósitos, que não perpetrar o genocídio contra os verdadeiros donos da terra, que a preservaram intacta e servindo às necessidades de sobrevivência, num edificante enlace homem/natureza. Não tinha em mente exterminar a cobertura vegetal da orla, para levar a Portugal o pau-brasil, praticamente extinto como floresta nativa.
Era uma alma sensível. Poeta, dramaturgo, educador. Sabe-se um pouco mais sobre ele, através a leitura de suas cartas, que revelam os primeiros anos de São Paulo, o cotidiano de seus moradores, a cristianização dos indígenas, as dificuldades missionárias nessa tarefa, as festas e os costumes de nossos aborígenes, seus rituais antropofágicos e a riqueza da fauna e da flora da Mata Atlântica.
Uma carta quadrimestral escrita em 1554, dirigida a Santo Ignácio de Loyola, explica o motivo da escolha do planalto paulistano para a nova sede jesuíta: “Para sustento destes meninos, a farinha de pau era trazida do interior, da distância de 30 milhas. Como era muito trabalhoso e difícil por causa da grande aspereza do caminho, ao nosso Padre (Nóbrega) pareceu melhor no Senhor mudarmo-nos para esta povoação de índios que se chama Piratininga. Isto por muitas razões: primeiro, por causa dos mantimentos; depois, porque se fazia nos portugueses menos fruto do que se devia. Por isso, alguns dos irmãos mandados para esta aldeia no ano do Senhor de 1554, chegamos a ela a 25 de janeiro e celebramos a primeira missa numa casa pobrezinha e muito pequena no dia da conversão de São Paulo, e por isso dedicamos ao mesmo nome esta Casa. De tudo isso escrevi por miúdo na carta precedente que abrangeu até o mês de junho. Residimos aqui ao presente oito da Companhia, aplicando-nos a doutrinar estas almas e pedindo a misericórdia de Deus Nosso Senhor que finalmente nos conceda acesso a outras mais gerações, para serem subjugados pela sua palavra. Julgamos que todas elas se hão de converter muito facilmente à fé, se lha pregarem”.
Anchieta era polivalente. Sacerdote, professor, médico e artesão. É o que se extrai de uma carta datada de 20 de março de 1555. Conta que era chamado à noite para ministrar medicamentos naturais a enfermos. E dá a sua receita para ter saúde: “desde que fiz conta que não era enfermo, logo comecei a ser são. Neste tempo que estive em Piratininga, que foi mais de um ano, servi de alveitar algum tempo, isto é, de médico daqueles índios”. Ele escreve de São Vicente, de onde despacha as cartas e acrescenta “além disso, aprendi cá um ofício que me ensinou a necessidade, que é fazer alpargatas”.
O Padre Hélio Abranches Viotti, estudioso de Anchieta e integrante da Academia Paulista de Letras, enxerga a qualidade literária da epistolografia anchietana: “Dotado de notável capacidade de observação e de privilegiada memória, acrescidas de sensibilidade artística para o aspecto poético das coisas, mas forrado ao mesmo tempo de vivíssima humildade, jamais se aparta Anchieta da objetividade e exatidão, ao expor por escrito suas impressões sobre as pessoas e os fatos, que descreve nas suas longas cartas informativas”.
Todavia, a mais famosa carta de José de Anchieta foi escrita em 31 de maio de 1560, sobre a Mata Atlântica, essa vítima do século XXI, que desapareceu em sua maior parte, em razão da cupidez e da ignorância, que no Brasil de hoje caminham de mãos dadas. Ele faz minucioso relato da fauna, entusiasta da biodiversidade, conceito que surgiria séculos depois. Nenhum outro jesuíta conheceu, tão bem como Anchieta, a geografia, a história e as condições culturais e sociológicas de sua heterogênea população. Sobretudo naquilo que concerne aos seus primitivos habitantes, tupis e tapuias, cujas línguas e hábitos de vida estudou e aprendeu em contatos pessoais, criando instrumentos científicos para a sua evangelização.
Sua vida é atestado de que os jesuítas não compactuavam com o morticínio de tantas etnias, hoje desaparecidas. Ele foi explícito na defesa indígena: “Porque a maior parte dos índios, naturais do Brasil, está consumida, e alguns poucos, que se hão conservado com a diligência e trabalhos da Companhia, são tão oprimidos, que em pouco tempo se gastarão”. Confessa, expressamente, na carta escrita em 1595, na aldeia de Reritiba, Espírito Santo, onde dois anos mais tarde viria a falecer, que se dá melhor com os índios do que com os portugueses. Foi em busca dos indígenas que veio ao Brasil, não por causa dos lusos. Faça-se justiça a José de Anchieta.
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José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove, presidente da Academia Paulista de Letras (APL); foi presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo

 

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