Toda solidariedade à Míriam Leitão

Rodolfo Capler

 

“Ainda com pena da cobra!” Este foi o comentário do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), em seu perfil no Twitter no último domingo, 03. Em tom de deboche, o deputado fazia referência a uma das sessões de tortura sofrida pela jornalista Míriam Leitão no período da ditadura militar. Com apenas 19 anos, a jovem universitária Míriam – grávida de um mês de seu primogênito Wladimir Netto – foi colocada nua ao lado de uma jibóia de três metros de comprimento num auditório escuro do 38º batalhão de Infantaria, em Vila Velha no ano de 1973. A sevícia amargada por Míriam foi, comoventemente, relatada pelo seu filho Matheus Leitão em seu best-seller “Em nome dos pais (2017)”. Fruto de doze anos de investigação séria, o livro de Matheus revela as crueldades do regime militar e os sofrimentos infundidos à sua mãe. Segundo Matheus, “Míriam ficou imóvel, estática, pois lembrou que o animal é atraído pelo movimento. Seu corpo doía, o suor escorria, ela tremia por dentro e repetia para si mesma: “Eu não posso me mexer.”
Matheus dedicou as 441 páginas de sua magistral obra para contar a história de Míriam e de seu pai Marcelo. As torturas e abalos psicológicos impostos a ambos são imensuráveis e indeléveis. Frente a isso, o deputado Eduardo Bolsonaro não segurou seu ímpeto de ibecilidade e demonstrou toda a sua canalhice e seu sadismo ironizando o suplício sofrido por Míriam. Para o jovem deputado, assim como para o clã do qual faz parte, misturar piadinhas de mau gosto com o assentimento de atrocidades é algo comum. Eduardo Bolsonaro aprendeu com o próprio pai que ditadura é coisa boa e que tortura é é um ato moral. Em entrevista a Matheus Leitão em 2017, Jair Bolsonaro – à época, deputado federal – fez a mesma chalaça em relação à Míriam, afirmando desavergonhadamente que reiterava a frase (antes proferida por ele): “Coitada da cobra”.
Freud talvez explique o recalque que pai e filho nutrem por Míriam. A figura de uma mulher forte, inteligente e bem-sucedida os assusta e revela a fraqueza e a covardia que os domina. Por essa razão vivem a atacar a jornalista e sua família.
O insulto de Eduardo à Míriam não é apenas uma afronta de caráter estritamente pessoal, mas antes de tudo, um acinte à democracia e ao Estado de direito. Portanto, não podemos mais reagir às contumélias bolsonaristas com sorrisos amarelos de quem riu e não gostou. Antes, precisamos confrontar e denunciar este tipo de atitude antidemocrática e nefasta.

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Rodolfo Capler, teólogo, articulista da Revista Veja e pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP.

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