O lugar da Rosa

Camilo Irineu Quartarollo

 

Chovia naquela alameda quando a costureira chegou ao ponto do ônibus, de guarda-chuvas aberto e alma cansada. Após longa espera chegou o coletivo na noite fria do Alabama. Os ônibus dos anos sessenta do século XX eram feios e os motoristas, brancos e carrancudos. Rosa Parks subiu, pagou e, exausta, sentou-se. Não podia ocupar aquele assento, de branco, que um homem caucasiano requisitou ao entrar depois no coletivo.
Dessa vez, porém, Rosa não se moveu nem um tiquinho do assento, e por justiça. Daí foi retirada à força do ônibus sob os olhares dos demais passageiros, fichada na delegacia e jogada na prisão.
Qual o preço pelo seu lugar?
Rosa pagou com alguns centavos de dólares, mais a prisão e demissão da alfaiataria, contudo, esse evento acendeu o estopim da consciência de luta pelos direitos civis. No dia seguinte, três quartos dos usuários de ônibus do Alabama boicotaram os coletivos. As empresas começaram a ter prejuízos pelo boicote que durou mais de um ano. O movimento se alastrou por outros estados. Aliás, não era somente por alguns centavos e não foi somente para derrubar presidente como o protesto de 2013 no Brasil, foi um movimento legítimo do povo negro, e por décadas (1952-1983). Martim Luther King elevado a líder desse movimento, um pastor batista, reconhecido pelo entendimento dos evangelhos e de sua catolicidade – o seu sonho espiritual era o de um só povo e nação, mas sem excluir quem quer que fosse, branco ou negro, evangélico ou católico. O movimento negro nos EUA encampou a luta pelos direitos e pela não-violência com ações afirmativas.
A Rosa não é passageira à espera do ônibus da história – é figura central, proativa, pacifista, ativista e definitiva na trajetória dos direitos civis dos EUA, reconhecidos posteriormente pela Corte Suprema e, décadas depois, Rosa é homenageada pelo presidente Bill Clinton que lhe oferece a cadeira ao lado da primeira dama – ela limitou-se a rir, aquele riso que não precisa de palavras.
O Correio Paulistano, traz em 1878 um texto maldoso, sob o título “Como elles são”, de uma viagem do governador de Pernambuco com seu criado descrito como letrado, bonito, de bigode e cavagnac, que lê com pose os textos de Varella em viva voz. Todavia, o sumiço de alguns objetos de valor de um dos passageiros faz culpado presumido o criado, acusado de forjar vida literária e cartas de recomendações ao cargo – tal relato está pormenorizado no livro Retrato em branco e negro, de Lilia M. Scharcz. Claro que a visão elitista não permitia que “elles” fossem nada além de escravizados ou que tivessem o direito de letramento ou de espernear para se livrar dos grilhões, por uma viagem que fosse.
Há um apartheid no Brasil e preconceitos que se maquiam bem com seus elevadores de serviço. Qual é o seu lugar? É a pergunta que se faz a todos, brancos e negros, Rosa soube responder. Nós saberemos escutar?
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Camilo Irineu Quartarollo, escrevente e escritor, autor de crônicas, historietas, artigos e livros

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