Aprender com os suecos

José Renato Nalini

 

A Suécia é um dos países mais civilizados do planeta. Nós teríamos tudo para nos aproximar dela, depois que a brasileira Silvia se tornou sua Raínha. Foi a partir de então que cresceram as expectativas de um Nobel para brasileiro. Toda a nossa vizinhança já recebeu um Nobel. O Brasil não.
Pelo visto, continuaremos a desmerecê-lo. Consta que o mais próximo foi Dom Helder Câmara, indicado para a categoria Paz. Só que os responsáveis pelo regime autoritário fizeram dossiês e se serviram da diplomacia para boicotar a homenagem. Seria uma espécie de descompostura para os governos militares.
O Brasil está muito sujo na comunidade internacional, que o considera “Pária Ambiental”. Não é só isso. A Raínha Silvia, quando foi dar à luz, foi dirigindo para a maternidade. Quando ela e o Rei vêm ao Brasil, utilizam-se de avião de carreira. Carregam sua própria bagagem. O que pensarão da exibição das autoridades brasileiras – dos três Poderes – que parecem sultões, tantos os serviçais que as acompanham nas viagens transatlânticas?
Os magistrados suecos vão ao Tribunal – prédios austeros, singelos e modestos – de bicicleta ou de metrô. Devem estranhar as frotas de viaturas oficiais constantemente renovadas, os rapapés, as pompas e circunstâncias que se rendem a quem é pago para servir o povo.
Mas o que mais prejudica o Brasil é o menoscabo evidenciado para com a floresta amazônica. Legítimo o interesse planetário por sua preservação. As mentiras, os subterfúgios, o deboche, o sarcasmo e a ironia não conseguem disfarçar a realidade: a Amazônia está sendo dizimada.
A esperança é o boicote estrangeiro a qualquer produto brasileiro. O eurodeputado sueco Pär Holmgren foi bastante explícito em relação àquilo que o nosso país sofrerá, se não adotar imediata reversão de rumo. O desastre ecológico parece irreversível. Já não se cuida de adotar medidas de mitigação. Além da imediata cessação do desmatamento, é preciso urgentemente reflorestar. Repor os dois bilhões de árvores destruídas. Pensando que os exemplares que estavam ali há séculos, talvez milênios, demorarão a crescer.
Se o Brasil quiser continuar a exportar e a receber uma parcela dos trilhões de dólares disponíveis para a grande transição para uma economia verde, inteiramente descarbonizada, precisará agir. Não discursar. Não falar bobagem. Não mentir. Não brincar com coisa séria.
“Zerar o desmatamento”. É o que diz o eurodeputado sueco. Ele ensina a ignorância predominante e eficaz no extermínio do porvir, que “a floresta brasileira é diferente da sueca, em que a biodiversidade é pequena. A floresta amazônica tem uma das maiores biodiversidades do mundo, começou a se desenvolver há mais de três milhões de anos, enquanto as matas suecas têm, no máximo, cinco mil anos. Se na Suécia temos metas de reflorestamento, no Brasil a situação é incomparável. O governo brasileiro precisa entender o quão precioso e vulnerável é esse ecossistema e fazer tudo para protegê-lo”.
Os suecos – os escandinavos da Noruega e Dinamarca, principalmente, respeitam as culturas que preservaram a cobertura vegetal do Brasil durante milênios, antes de que os portugueses aqui chegassem e, como saúvas, acabassem com a Mata Atlântica, levando para a Europa o pau-brasil.
A questão indígena é uma das chagas tupiniquins, sem trocadilho. O genocídio continua, pois incentiva-se a grilagem, a invasão de terras demarcadas, a exploração de minérios em áreas reservadas aos primeiros habitantes e, o que a comunidade jurídica insiste em negar, os verdadeiros donos da terra. Como é que os índios foram mortos e expulsos de seu habitat? Pela força, pela violência. Isso é compatível com a ciência jurídica, alicerçada sobre a ideia inefável de justiça?
O vexame das explicações oficiais em fóruns como a COP-26 é comentado em todo o mundo. O eurodeputado Pär Holmgren inquiriu o ministro do ambiente – aquele que afirmou que floresta é sinônimo de pobreza – sobre os índios. “Não considerei satisfatória a resposta que recebi do ministro. Minha impressão é que o governo brasileiro não assume sua responsabilidade por essas comunidades”.
O Brasil que pensa, o Brasil sensível, o Brasil verde e ecológico espera que a pressão internacional se intensifique e obtenha aquilo que o bom senso não obteve até o momento: ações com vistas a resultados na área ambiental. Punição aos criminosos dendroclastas, replantio das áreas devastadas, educação ambiental de qualidade. Nenhuma novidade. Basta cumprir o artigo 225 da Constituição da República. Pacto nosso, fruto de nossa soberania. Será preciso aprender com os suecos a respeitar uma Constituição Cidadã?
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José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove, presidente da Academia Paulista de Letras (APL); foi presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo

 

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