O dia da mentira na política brasileira

Dirceu Cardoso

 

Relativamente aos meus tempos de criança e jovem, o 1º de abril, tido como o “dia da mentira”, perdeu muito de sua força popular. Herdado dos povos europeus que, antes da adoção do calendário gregoriano (1564), comemoravam o ano novo de 25 de março a 1º de abril, o hábito de pregar peças nos amigos fez, durante muitos anos a diversão (e até a irritação) de muita gente. A data começou a ser comemorada no Brasil em 1º de abril de 1828, quando um jornalzinho denominado “A Mentira” que circulou em Minas Gerais e teve vida curto, noticiou a morte do imperador Pedro I, que só perderia a vida em setembro de 1834, já como Pedro IV, de Portugal. Atualmente as brincadeiras não têm o mesmo significado.
A coincidência, no entanto, nos levou a vivenciar acontecimentos marcantes no dia da mentira, ou perto dele. A Revolução de 1964, fixada no calendário como ocorrida em 31 de março, teria se consolidado a 1 de abril, mas seus executores escolheram o dia anterior para manter a seriedade naquele momento de dificuldade política. Os que a fizeram batizaram-na Revolução e os adversários, depois que os militares devolveram o poder aos civis, em 1985, rebatizaram-na como Golpe e isso foi até para a nomenclatura oficial. O consenso jamais existirá. Agora mesmo, o ex-ministro da Defesa, Braga Neto divulgou ordem do dia (lida nos quartéis) em que exalta o movimento. Os opositores ao regime de então torceram o nariz. Deveriam ambos os lados compreender as razões de momento e deixar a rusga para a história, que já &e acute; quase sexagenária.
Também por coincidência, pois decorre do calendário eleitoral, termina nesta sexta-feira (1º de abril), a janela partidária, período de um mês em que deputados podem mudar de partido sem o risco de perder o mantado. Até a manhã – quando preparava este artigo – 102 dos 513 deputados federais já haviam mudado de endereço partidário e não dava para prever o número do final do dia. O mesmo ocorre com os deputados estaduais, todos buscando melhor acomodação para as eleições de outubro. O governador de São Paulo, João Dória, deixou o governo para se candidatar à presidência da República, mesmo tendo números inexpressivos nas pesquisas eleitorais, além da denunciada tentativa de golpe dentro do PSDB, onde Eduardo Leite, o perdedor da pr&ea cute;via partidária estaria articulando sair candidato. Tanto que Leite também deixou o governo do Rio Grande do Sul. Já o ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro não teve olhar tão firme em direção do Palácio do Planalto e preferiu trocar a candidatura a presidente pela de deputado federal, mudando de partido e, inclusive, de Estado (do Paraná para São Paulo). Bolsonaro e Lula seguem como favoritos diante de uma legião de nanicos que não conseguem montar a sonhada terceira via para enfrentá-los.
Com as acomodações partidárias – inclusive a saída de dez ministros do governo federal, que serão candidatos em outubro – se estabelece uma nova relação de forças na política brasileira. Os pré=candidatos movimentam-se em busca de apoio e logo teremos os horários eleitorais de rádio e TV, a campanha que for permitida nas redes sociais e até os comícios. É de se esperar que a montagem ou pelo menos o anúncio dos esquemas no “dia da mentira” nada tenham a ver com a tradicional celebração popular. Que os candidatos tenham a consciência de que a verdade é o único caminho para o encontro de melhores dias e, por isso, jamais digam mentiras ao povo. Nem de brincadeira. E que até os desacreditados institutos de pesquisas tenham como provar ao grande p& uacute;blico sua competência e lisiura ao divulgar suas pesquisas e prévias eleitorais.
Se você, leitor, procurar na história, talvez encontre outras coincidências do dia da mentira com a política, mas certamente verá que, até tardiamente, a verdade sempre prevaleceu…
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Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves, dirigente da Aspomil (Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo) [email protected]

 

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