Adoção afetiva sobrevive

José Renato Nalini

 

Quando deixei a Magistratura, onde poderia permanecer por mais cinco anos, para atender a uma convocação do Governador Geraldo Alckmin, compenetrei-me que um dos problemas da educação pública é a generalizada omissão da família.
Pela minha formação, fui à Constituição da República e fiz mantra do seu artigo 205: a educação, direito de todos, é dever do Estado e da Família, em colaboração com a sociedade.
Com o intuito de aproximar família e sociedade da escola mantida pelo dinheiro do povo, mediante atuação governamental, pensei num projeto que chamamos “Adoção Afetiva”. Convoquei empresas, entidades, clubes, igrejas, personalidades e pessoas de boa vontade, para que se aproximassem da Rede Estadual.
Obtive gratificante resposta de muitos cidadãos interessados em aprimorar o processo de formação das novas gerações. Dentre os muitos que se prontificaram a atuar, destacaram-se as delegações extrajudiciais. O exemplo de Priscila Agapito, Tabeliã do 29º Tabelionato da Capital é emblemático. A Escola Estadual Cesar Martinez ganhou vida nova com o seu trabalho firme e carinhoso, que mereceu adesão de seu grupo. A alegria das crianças com o novo estilo propiciado por sua equipe foi a melhor recompensa que se poderia esperar.
Um outro delegatário, Luiz Rodrigo Lemmi, titular do 2º Registro de Imóveis de Marília, adotou a Escola Estadual Monsenhor Bicudo. Ali supriu todas as deficiências que são a regra nas mais de cinco mil escolas estaduais. Desde 2018, já custeou uniformes para os alunos, adquiriu câmeras de monitoramento, instalou sala multimídia, ofertou ventiladores para as salas de aula.
Recentemente, fez a reforma do Ginásio de Esportes, inteiramente revitalizado, com investimento superior a oitenta e um mil reais. Mecenato espontâneo, originado numa consciência sensível de quem sabe que o maior problema brasileiro é não investir em educação de qualidade e tem a convicção de que esta é a chave para a solução de todos os déficits da nacionalidade.
Sei que outros parceiros continuam a prestigiar as suas “escolas adotivas”. Um deles é o humanista Ricardo Sayeg, que se encantou com uma Escola Estadual paulistana e passou a exercer um protagonismo notável junto à direção e ao alunado.
Também soube que Rotary Club, parceiro desde a primeira hora, continua a fazer alguma coisa para que essa ideia persista. Lamentavelmente, como costuma ocorrer no Brasil, a cada gestão “reinventa-se a roda” e não se costuma prosseguir em iniciativa prestigiada por titular anterior.
Todavia, essa proposta não tem nome, nem depende de ênfase personalizada. É um gesto cívico e humanitário. Quem se preocupa com o futuro do Brasil sabe que a escola pública perdeu a sua aura. No século passado, desde educadores pioneiros como Fernando Azevedo, Caetano de Campos, José Feliciano de Oliveira, incentivados pelos Presidentes Campos Salles, Prudente de Morais e Rodrigues Alves, as escolas eram templos de saber, verdadeiramente reverenciados pelos alunos e por suas famílias.
Uma série de vicissitudes, que têm origem no comportamento de alguns políticos que se esquecem da coisa pública e fazem da política partidária uma profissão para enriquecer, contribuiu para que os estabelecimentos de ensino deixassem de merecer respeito e afeto.
Isso explica a evasão do alunado, principalmente no Ensino Médio, o desprestígio da profissão docente – que é a mais relevante para qualquer povo – a violência e o vandalismo perpetrado em lugares antigamente sagrados.
O projeto “Adoção Afetiva” fala por si. Adotar por amor, algo que é de todos. Mantido pelo dinheiro do povo. Destinado a preparar aqueles que vão assumir as rédeas da nação dentro em pouco.
A experiência que adquiri durante aquele período em que estive a titularizar a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo foi a de que mais ganha aquele que se propõe a ajudar, a se aproximar da escola, do que o próprio estabelecimento.
Que bom que ainda existem Luiz Rodrigo Lemmi, Ricardo Sayeg e a musa Priscila Agapito, que encontram tempo para ofertar à mais nobre causa: a educação pública. Chave que, adequadamente acionada, mudará a face do Brasil. E nossa Pátria está, de fato, a necessitar dessa transformação.
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José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove, presidente da Academia Paulista de Letras (APL); foi presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo

 

 

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