Betty Milan é imortal paulista

José Renato Nalini

 

Na sucessão do historiador Célio Salomão Debes, a Academia Paulista de Letras elegeu para a Cadeira 4 a escritora Betty Milan. Foi uma vitória estrondosa, pois entre 39 votantes, houve uma abstenção, um voto em branco e um voto para a concorrente. Trinta e seis acadêmicos da Casa de Cultura por excelência de São Paulo, votaram em Betty Milan.
E acertaram! Pou-cas escritoras brasileiras conseguiram o que Elizabeth Milan Mangin obteve com sua dinâmica e criativa produtividade. É autora de romances, ensaios, crônicas e peças de teatro, publicadas também na França, Argentina e China.
Sempre esteve nos jornais, como articulista da Folha e da Veja. Sempre interessada em promover o nome do Brasil na literatura, atuou ativamente para viabilizar o Parlamento Internacional dos Escritores, com sede em Estrasburgo. Nos anos 1988 e 2015 foi convidada de honra no Salão do Livro em Paris, cujo tema era o Brasil.
Formada em Medicina pela USP, especializou-se em psicanálise na França com Jacques Lacan. Sua origem é o Líbano, o que talvez explique sua predileção pela França, onde passou a residir e onde permanece boa parte do ano. Ali tomou contato não só com a obra, mas também tornou-se amiga de nomes como Gerard Lebrun, Michel Serres e Michel Foucault.
Sua especialização em psiquiatria contou com estágios em colônias psiquiátricas como a de Franco da Rocha e também na Escócia, na comunidade terapêutica dirigida por Maxwell Jones.
Sempre em busca de aprimoramento, estuda psicodrama e psicanálise e exerce ambas as práticas. Ao encontrar Zerka Moreno em Buenos Aires, durante um Congresso de Psicodrama, interessa-se por aperfeiçoar-se e estuda no Moreno Institut, em Beacon, NY. Com Zerka, atua no Public Theater of New York. Retorna ao Brasil e escreve “O jogo do esconderijo”, obra de questionamento do psicodrama, pelo que pode nele existir de voluntarismo.
Doutora-se pela USP em Psiquiatria aos vinte e nove anos e parte para a França, para se analisar com Jacques Lacan, de quem se torna tradutora e assistente na Universidade de Paris VIII. Desse convívio resultou o livro “O Papagaio e o Doutor”, traduzido para o francês e espanhol e que impactou a crítica literária em vários países, além do Brasil: Portugal, França, Bélgica, Líbano, Argentina.
Sua vida literária tem continuidade com o romance “O sexophuro”, bem recebido pela crítica. No Brasil, concilia a formação de psicanalistas com a clínica e mergulha na cultura popular. Faz pesquisa sobre o Carnaval, ensina no Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, que fundou em 1975 com o também psicanalista Magno Machado Dias e que é marco no Brasil na difusão da psicanálise lacaniana.
Escreve “Os bastidores do Carnaval”, que leva a sério o trabalho dos produtores dessa grande festa brasileira e, do contato e convívio com Joãozinho Trinta, passa a proclamar a cultura do brinca e dissemina a ideia de quão importante é brincar para o brasileiro, alto comparável ao “humour” britânico.
Para Betty Milan, brincar é um recurso civilizatório na cultura brasileira. No ensaio que escreve sobre o amor, distingue a paixão do amor, à maneira de Tristão e Isolda, e a paixão do brincar, singularidade do amor à brasileira, bem retratado no “Macunaíma” de Mário de Andrade.’
Sua concepção de amor é o volume “O que é o amor na coleção “Primeiros Passos” da Editora Brasiliense, texto que causou polêmica. Um capítulo converteu-se na peça teatral “Paixão”, interpretada por Nathalia Thimberg e com grande sucesso em todo o Brasil.
Escreveu ainda “O país da bola”, “A paixão de Lia”, “Paris não acaba nunca”, “A força da palavra”. Este livro reúne entrevistas que Betty Milan fez com personalidades em Paris, como Nathalie Sarraute, Octavio Paz, Michel Serres, Jacques Derrida e Françoise Sagan, dentre outros.
Com dez entrevistas sobre o século XX e suas vicissitudes, publica o livro “O século”, publicado pela Record e ganhador do prêmio da APCA em 1999. Como convidada de honra no Salão do Livro em Paris, vê traduzidos os seus livros “Rio, dans les coulisses du carnaval”e “Le pays du ballon rond”, pela Éditions de l”Aube, que já publicara “Le Perroquet et le Docteur”. Depois escreve “O Clarão”, romance de sabedoria sobre amizade e morte, “A cartilha do amigo”, para o público escolar. “A paixão de Lia” é interpretado por Giulia Gam, sob direção de José Celso Martinez Correa. E continuou sua rota produtiva, lançando em 2021 “Adieu Lacan”, que virou filme.
Sua chegada à Academia Paulista de Letras, praticamente por unanimidade, reflete a esperança da Casa do Arouche de contar com Betty Milan para dinamizá-la e difundi-la, pois garra e audácia não lhe faltam.
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José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove, presidente da Academia Paulista de Letras (APL); foi presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo

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