O segundo turno

Almir Pazzianotto Pinto

 

As atenções com a Copa do Mundo no Catar concorrem, entre nós, com as comemorações do bicentenário da Independência na Semana da Pátria, e as eleições presidenciais. O campeonato mundial tem o início programado para 21.11 e encerramento em 18/12. Na disputa eleitoral a primeira votação será realizada no “primeiro domingo de outubro”, dia 2.
É improvável que algum candidato alcance maioria absoluta. Nova rodada de votação será levada a efeito “em até vinte dias após a proclamação do resultado, concorrendo os dois candidatos mais votados e considerando-se eleito aquele que obtiver a maioria dos votos válidos” (Constituição, art. 77).
Para fixar o significado da palavra até, determina o art. 2º, parágrafo 2º, da Lei nº 9.504, de 30/9/1997, que “Se nenhum candidato alcançar maioria absoluta na primeira votação, far-se-á nova eleição no último domingo de outubro, concorrendo os dois candidatos mais votados, e considerando-se eleito o que obtiver a maioria dos votos válidos”.
O último domingo de outubro será no dia 30. Isto significa que, concluídas as comemorações do bicentenário e conhecida a seleção vencedora da Copa do Catar, o povo se manterá em suspense até 1º de novembro quando, salvo a ocorrência de algo inesperado, conheceremos o próximo presidente da República e os governadores eleitos dos Estados.
Para a presidência dois candidatos despontam como adversários na segunda rodada de votação: Jair Bolsonaro e Luís Inácio Lula da Silva. São nomes conhecidos por dezenas de milhões de brasileiros, espalhados por mais de 5 mil municípios. Neste requisito estão emparelhados. São, também, aqueles que despertam as mais fortes reações positivas e negativas. Ambos os dois, como diria Rui Barbosa, são idólatras, obcecados pelo poder e adeptos do culto à personalidade.
Jair Bolsonaro, deputado federal membro do baixíssimo clero, adquiriu notoriedade pelo descontrole verbal, exacerbado autoritarismo, manifestações machistas, facilidade para se irritar, hostilidade à imprensa e acusações de participar da famigerada “rachadinha”. Venceu as eleições de 2018 com a força do silêncio. Recolhido a hospital, após o atentado à faca que lhe perfurou os intestinos, manteve-se distante de debates e comícios Como presidente da República desperta idolatria, ou provoca sentimentos de profunda aversão. Não se pode prever, com razoável margem de segurança, como se conduzirá na campanha e se colherá os louros da vitória.
Luís Inácio Lula da Silva deixou de ser o líder incontestável do passado. O exercício do poder o aburguesou. Eu o conheci em 1970 quando era suplente de diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. O episódio se deu em assembleia destinada a decidir se a entidade participaria do dissídio coletivo anual sobre salários sob a coordenação da Federação dos Metalúrgicos do Estado, ou teria pauta própria de reivindicações. Agente do DOPS presente à reunião fez este relato: “Em 20-2-1970 realizou-se no Cine Anchieta, em São Bernardo do Campo, uma Assembleia Geral dos Metalúrgicos. O nominado advogado do Sindicato, presidiu os trabalhos, fazendo uso da palavra”. A assembleia terminou em pancadaria. O livro Imagens da Luta 1905-1985, editado pelo Sindicato, traz fotografia na folha 139, onde vemos Lula e outros dirigentes.
Presidi a reunião a pedido de Paulo Vidal Neto, presidente. Foi o início de longos anos de serviços como assessor da diretoria. Em setembro de 1974 participei do I Congresso dos Trabalhadores Metalúrgicos, ao lado de Walter Barelli. Desliguei-me da entidade em 1983, para assumir a direção da Secretaria do Trabalho do Estado.
Momentos decisivos para a minha carreira, para a vida de Lula e do Sindicato, foram a campanha em setembro de 1977 pela reposição de 34,1%; os conflitos com a Ford; o julgamento do dissídio coletivo de 1976 no TST; as greves de 1978, 1979, 1980. Estávamos sob a ditadura. Os salários permaneciam arrochados. A Lei de Greve remetia à ilegalidade qualquer paralisação coletiva.
Lula cresceu sob a adversidade. Cassado em 1980 não voltou a dirigir a entidade. Deixou o sindicalismo e enveredou por vitoriosa trajetória política. Foi deputado na Assembleia Constituinte. Duas vezes presidente da República, fez de Dilma Roussef a sucessora. Acabou, porém, condenado por corrupção na operação Lava Jato e recolhido à prisão. Inocentado pelo Supremo Tribunal Federal, voltou à vida pública mais velho, obstinado e arrogante.
Se não surgir terceira via apta a alcançar o segundo turno, para nossa frustração a decisão dar-se-á entre os dois.
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Almir Pazzianotto Pinto, advogado, foi Ministro do Trabalho, presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST). OsDivergentes.com.br Brasília, DF, 22/3/2022

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