Overpareting: a doentia relação dos pais com seus filhos

Rodolfo Capler

 

Julie Lythcott-Haims, ex-reitora da Universidade Stanford, cunhou o termo “overparenting” para referir-se ao fenômeno moderno da obsessão dos pais em guiar e proteger seus filhos. A acadêmica tem disseminado suas análises por todos os Estados Unidos, chamando a atenção da sociedade americana para esse processo, que segundo ela, “tem apodrecido a mais nova geração de jovens”.

Acredito que a overparenting ganhou contornos globais, pois aqui em Piracicaba – no contexto no qual me encontro – identifico essa realidade de superproteção dos pais em relação aos seus filhos. Não é incomum vermos adultos que superprotegem seus filhos a ponto de torná-los nulos em suas decisões e ações. No período em que atuei como pesquisador na área da educação em dez escolas estaduais da nossa cidade, discerni os efeitos colaterais da overparenting na vida dos estudantes. Por exemplo, por meio das 300 entrevistas que conduzi com alunos do ensino médio, concluí que 90% das meninas de 15 anos não estão envolvidas na ajuda das tarefas domésticas e 98% dos meninos de 16 anos nunca arrumaram o próprio quarto mais de duas vezes no semestre.

Em outros tempos, meninas e meninos da mesma idade assumiam responsabilidades cotidianas em suas casas, e, em sua grande maioria, pensavam em arrumar um emprego e ter seu próprio dinheiro. Hoje os adolescentes são languidos e irresponsáveis. Isso se deve não somente à constante presença da tecnologia em suas vidas, mas, sobretudo, por conta da  intervenção dos pais na vida dos seus filhos.

Segundo os estudos de Julie Lythcott-Haims, a atitude superprotetora dos pais em relação aos filhos, gera adultos infantilizados. No Brasil essa geração de “adultos crianças” é conhecida como “geração canguru”, composta de adultos de 25 a 34 anos que ainda moram com os pais. Isso é um retardamento social e os principais responsáveis são os pais desses jovens que os super direcionam e os superprotegem.

No mundo hiperconectado em que estamos tudo concorre para que os adolescentes se tornem apáticos, medrosos e irresponsáveis. Infelizmente a tendência natural das coisas é o quadro piorar. Assim como a ex-reitora da Universidade Stanford, acredito que os pais são chave na modificação dessa situação.  Portanto, o meu apelo aos pais de adolescentes é que não protejam seus filhos. Deixe-os sofrer por suas más decisões, para que dessa forma cresçam e aprendam a se emancipar como futuros adultos numa sociedade que implica muitas demandas e decisões. Imponha tarefas cotidianas aos seus filhos. Isso introjeta neles senso de responsabilidade e sentimentos de satisfação interior.

Antes que me questionem com qual experiência estou escrevendo tais coisas, lhes respondo: com a experiência de alguém que não foi protegido pelos pais.

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Rodolfo Capler, teólogo, autor do livro “Geração Selfie” (2021) e pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP.

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