O discurso de Monark e o paradoxo da tolerância

Rodolfo Capler

 

Era a edição #545 do Flow Podcast – canal com mais de 3,68 milhões de inscritos no YouTube. O programa, realizado ao vivo na última segunda-feira (07), contava com a presença dos jovens deputados Kim Kataguiri (DEM – SP) e Tabata Amaral (PSB – SP). O papo fluia aleatoriamente – como é comum nesse tipo de formato na internet -, até o momento em que os participantes do programa introduziram o tema da liberdade de expressão. Um dos apresentadores do Podcast, Bruno Aiub (vugo, Monark), conhecido por suas infundadas e grosseiras opiniões, afirmou em dado momento do diálogo: “Eu acho que tinha que ter um partido nazista reconhecido por lei”. Não bastasse a fala inapropriada, o youtuber acrescentou: “As pessoas não tem o direito de serem idiotas? Se o cara quiser ser antijudeu, eu acho que ele deveria ter o direito de ser”.

Monark alegou respaldar suas opiniões na constituição dos Estados Unidos, que permite a existência de um partido nazista.  A fala do podcaster não somente foi desrespeitosa como muito perigosa e classificada como criminosa por muitos profissionais das ciências jurídicas. Segundo muitos juristas, como  Gilmar Mendes, ministro do STF, Monark fez apologia ao nazismo. Como consequência de suas afirmações, o youtuber foi desligado do Flow Podcast e execrado nas redes sociais.

O incidente vem suscitando debates acerca dos perigos dos discursos de ódio, da intolerância às minorias e das ideologias extremistas, assim como sobre os limites da liberdade de expressão. Após o frisson causado por suas afirmações, Monark tentou fazer um mea-culpa em suas redes sociais, dizendo ter cometido um erro por estar muito bêbado. Não colou. Suas declarações ofenderam a comunidade judaica e foi um acinte contra a democracia e o Estado de Direito.

Monark provavelmente não é nazista e demonstrou não dispor de muitas informações sobre os fatos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial, porém, suas alegações foram levianas, perigosas e devem ser repudiadas por todos. Em sua fala, o comunicador não levou em conta que a liberdade individual não pode estar acima do bem-estar coletivo. Dentro dos sistemas democráticos o direito de existir é um direito de todos, porém, isso não significa que esse direito justifique a aniquilação de grupos e indivíduos. Portanto, qualquer discurso que advogue o extermínio do outro, deve ser recriminado. Como bem registrou o filósofo de origem judaica Karl Raimund Popper em seu “Paradoxo da Tolerância” (texto contido em sua seminal obra “A sociedade aberta e os seus inimigos”):  “Menos bem conhecido é o paradoxo da tolerância: tolerância ilimitada levará ao desaparecimento da tolerância. Se estendemos tolerância ilimitada até àqueles que são intolerantes, se não estamos preparados para defender a sociedade tolerante contra o ataque dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, juntamente com a tolerância. […] Devemos afirmar que qualquer movimento que prega a intolerância está fora da lei, e considerar criminoso o incitamento à intolerância e perseguição, da mesma forma que é criminoso o incitamento ao homicídio, ao rapto ou ao reavivar da escravatura”.

Popper, que escreveu tais palavras em 1945, ano em que terminou a Segunda Grande Guerra, compreendia muito bem o potencial destrutivo dos discursos intolerantes. O nazismo iniciou-se com ideias extremistas de supremacial racial e de segregação e ódio aos judeus, negros, homossexuais, doentes mentais, deficientes físicos e ciganos. Quando Hitler publicou seu best-seller “Mein Kampf” em 1925, a comunidade internacional fez pouco caso de suas concepções radicais e preconceituosas. Seguindo a estratégia de “um passo a mais de cada vez”, o nazismo foi conquistando e envolvendo o povo alemão e anos mais tarde, suas nefastas idealizações de mundo desembocaram na construção das câmaras de gás e no morticínio de milhões de pessoas inocentes.

Atitudes como a de Monark têm sido recorrentes nos últimos tempos no Brasil. Disfarçados de defesa da liberdade de expressão, tais discursos de teor nazifascistas devem ser criminalizados e condenados socialmente para que  sirvam de alerta a todos aqueles que almejam exceder as linhas do campo democrático.

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Rodolfo Capler, teólogo colaborador da Revista Veja e pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP.

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