Prudente de Moraes, um filho de Piracicaba

Rodolfo Capler

 

Muita gente não sabe, mas o primeiro presidente da República brasileira, por voto direto, foi um filho ilustre de Piracicaba. Chamado de “Biriba”, “Prudente Demais”, “Santo Varão” e – durante aos anos da presidência -, de “Taciturno do Itamarati”, o ituense Prudente José de Moraes e Barros (o Prudente de Moraes), viveu e morreu em Piracicaba.
Em 1863, aos 23 anos de idade, logo após se graduar em Direito na Universidade de São Paulo, Prudente mudou-se de Itu para Piracicaba – que à época se chamava Vila Nova da Constituição. Aqui em nossa cidade, Prudente de Moraes iniciou sua carreira como advogado (no espaço onde hoje é o Museu Prudente de Moraes), e a exerceu por dois anos. Em 1864, junto ao Partido Liberal (PL), monarquista, foi eleito vereador municipal, sendo o mais voltado. Logo em 1865, tornou-se o presidente da Câmara Municipal, onde realizou um dos seus maiores feitos para a nossa cidade: mudou o nome do município para Piracicaba, nome indígena, utilizado pelos canoeiros índios paiaguá que quer dizer “lugar onde o peixe pára”.
Em 1873, integrando o Partido Republicano Paulista (PRP), foi deputado provincial em São Paulo. Em 1874 fundou a primeira loja maçônica de Piracicaba e, em 1885, foi eleito deputado para a Assembleia Geral do Estado. Prudente era um republicano, favorável ao federalismo e abolicionista (apesar de em tempos anteriores – por razões emocionais – ter sido favorável a escravidão).
Com a Proclamação da República (1889), Prudente de Moraes foi nomeado governador de São Paulo, por Marechal Deodoro da Fonseca, durante o governo provisório. A sua primeira medida como governador foi nomear seu irmão, Manuel, como delegado de polícia de Piracicaba e logo depois, instituiu o ensino público no Estado, deixando um grande legado social para os paulistas.
Prudente alçou vôos mais altos; chegou a vice-presidente do Senado e presidiu a Assembleia Constituinte de 1890-91. Engendrada a Constituição, disputou a presidência da República com Deodoro, sendo derrotado por 129 votos contra 97. Com a renúncia de Deodoro, seu vice, Floriano Peixoto, foi eleito. Prudente passou então a presidir o Senado, embora este permanecesse em recesso durante a ditadura florianista.
Aos 53 anos de idade (em 1894), Prudente participou mais uma vez da corrida presidencial e dessa vez a ganhou, se tornando o primeiro presidente por voto direto no Brasil. Aparentando ter 20 anos a mais que a sua real idade, Prudente era a alegria do caricaturista Ângelo Agostini, do jornal D. Quixote, pois mantinha uma barba grisalha e um semblante circunspecto, que segundo o historiador Sérgio Buarque, o deixava com um ar “autoritário e profético”.
Em 1896, ainda durante os anos da presidência, Prudente, que sempre tivera uma saúde precária, ficou doente e precisou ser substituído, interinamente, por seu vice, Floriano Peixoto. No poder, Floriano interveio na Guerra de Canudos, deixando Prudente em maus lençóis (em sua retomada em 1897), com uma guerra sanguinolenta que poderia ter sido evitada.
Prudente de Moraes venceu a guerra. Tinha 57 anos quando deixou a presidência. Foi aplaudido e ovacionado por multidões de brasileiros que o amavam. Com uma aparência cansada, transmitiu o cargo a Campos Sales, em 15 de novembro de 1898. Quatro anos depois, Prudente morreu de tuberculose em Piracicaba, a cidade que tanto amava e de quem se sentia filho.
Prudente de Moraes é um dos maiores orgulhos dos piracicabanos. Ele foi “um grande presidente”, conforme a homenagem do seu biógrafo Rodrigo Otávio, e deixou um imensurável legado para a posteridade. A sua importância para Piracicaba pode ser vista em nosso urbanismo, seja por meio da Rua Moraes Barros, da Escola Estadual Doutor Prudente de Moraes ou do Museu Histórico e Pedagógico Prudente de Moraes. É importante rememoramos o seu imenso legado para Piracicaba e para o Brasil
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Rodolfo Capler, teólogo, escritor e pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP.

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