Um longo exílio de 32 anos

Armando Alexandre dos Santos

 

Como vimos em nosso artigo anterior, o golpe republicano de 1889 impediu que a Princesa desenvolvesse seu projeto de resgate da dívida histórica contraída pelo Brasil em relação aos ex-escravos e seus descendentes. Outro efeito, mais imediato, esse golpe foi o exílio da Família Imperial. A imperatriz D. Teresa Cristina, com a saúde profundamente abalada, faleceu em Portugal, apenas 6 semanas depois do 15 de Novembro. O Imperador, de formação estoica, procurou resistir ao exílio e à viuvez, consagrando-se com dedicação integral ao que mais gostava de fazer: ler, estudar, visitar sábios e academias científicas. Sem recursos econômicos e sobrevivendo graças a empréstimos e subvenções de amigos, faleceu em modesto hotel de Paris, dois anos depois. Quanto à Princesa Isabel, viveu 32 anos no exílio, de início com extrema parcimônia. Mais tarde, depois da venda de alguns imóveis que a República brasileira não confiscara, e sobretudo graças a uma herança recebida pelo Conde d´Eu, pôde viver sem luxo, mas com relativa tranquilidade econômica. Isso lhe permitiu retomar as atividades caritativas com as quais, por temperamento e formação, sentia tanta afinidade. E, também desenvolveu, ainda mais do que no Brasil, intensa vida de piedade cristã.

Sempre acolhia no Castelo d´Eu, onde passava parte do ano, ou na sua residência parisiense de Boulogne-sur-Seine, visitantes do Brasil que em grande número a procuravam. Não apenas monarquistas e membros da antiga nobreza do Império a visitavam, mas brasileiros de todas as colorações políticas e das mais variadas condições sociais que, por alguma razão, viajavam para a França, a todos acolhia. De alguma forma, mitigava, na conversa com seus compatriotas, as saudades da pátria distante. Do Brasil recebia volumosa correspondência que, apesar de uma nevralgia no punho, que tornava doloroso o ato de escrever, sempre respondia.

Mantendo a linha adotada por seu pai depois de 1889, nunca apoiou uma restauração imperial por meios violentos. Em bilhete dirigido ao Conselheiro João Alfredo, deixou clara sua posição a esse respeito: ”Meu pai, com seu prestígio, teria provavelmente recusado a guerra civil como um meio de retornar à pátria… lamento tudo quanto possa armar irmãos contra irmãos… É assim que tudo se perde e que nós nos perdemos. O senhor conhece meus sentimentos de católica e brasileira.”

Alguns aspectos da vida da Princesa Isabel no exílio foram recordados por seu bisneto D. Luiz de Orleans e Bragança, em carta que dirigiu em 7 de setembro de 1987, na condição de Chefe da Casa Imperial do Brasil, aos Deputados e Senadores reunidos em Assembleia Nacional Constituinte:

“Minha bisavó, a Princesa Isabel, jamais incentivou nem autorizou qualquer tentativa de restauração monárquica por meios violentos. Sendo de piedade notória, ela continuou concorrendo com o valor de suas preces para que nosso Pais prosseguisse nas vias gloriosas da Civilização Cristã, rumo à peculiar grandeza – também cristã – que ela sabia ser o destino especifico de nossa Pátria. Por outro lado, interpôs ela toda a sua influência junto aos meios eclesiásticos da França, onde vivia com seu esposo o Conde d’Eu, para que no célebre santuário do Sagrado Coração de Jesus, erguido em Paray-le-Monial, centro de convergência da piedade dos católicos de todo o mundo, estivesse presente o Brasil, por uma placa impetratória que ficou aposta a um dos muros desse lugar sagrado. Igualmente foi por iniciativa dela, e por seu intermédio, que o Episcopado brasileiro enviou, em 1901, uma súplica ao Papa Leão XIII, pedindo a proclamação do dogma da Assunção de Maria Santíssima. Encaminhando ao Pontífice a mensagem dos Bispos do Brasil, escrevia minha bisavó: `Longe de minha Pátria, sinto-me feliz ao menos por trabalhar pelo que nela pode fortificar a Fé´ (carta de 6-6-1901). Dessa forma, o Brasil juntava sua voz ao clamor universal dos fiéis, para que mais um titulo de glória da Santa Mãe de Deus fosse solenemente proclamado pela Igreja. Quase meio século depois, a 1.º de novembro de 1950, Pio XII houve por bem definir, como dogma de Fé, a Assunção corpórea de Maria aos céus.Generosa e caritativa que era, a Princesa Isabel destinava parte de seus apenas suficientes recursos ao socorro dos pobres e doentes. Os pedidos que lhe chegavam do Brasil, muito numerosos, eram preferencialmente atendidos, com discrição e solicitude. Enquanto esses fatos transcorriam, a Princesa Isabel ocupava o pouco que lhe restava viver, pensando com saudades no Brasil, e mantendo larga correspondência com pessoas de sua amizade que ela deixara aqui ao ser exilada. Seus salões estavam sempre abertos para os inúmeros brasileiros que a procuravam em suas residências de Boulogne-sur-Seine e do Castelo d’Eu.Muito relacionado com a Família Imperial no exílio foi, por exemplo, Santos Dumont, o Pai da Aviação. Sentia-se minha bisavó ufana por ver um brasileiro vencer o desafio da navegação aérea. E estendia a ele o sentimento maternal que tinha por todos os brasileiros: preocupava-se pelo inventor, rezava fervorosamente por ele quando de seus arriscados voos nos céus de Paris, e tinha especial gosto em lhe mandar saborosos farnéis, para que se alimentasse, no parque de Bagatelle, sem precisar interromper os treinamentos”[até aqui, transcrição do texto de D. Luiz de Orleans e Bragança]

Assim decorreu a vida da Princesa até a eclosão da guerra de 1914-1918, que durante duas décadas foi denominada “a Grande Guerra” e que hoje designamos como “Primeira Guerra Mundial”. Diante das proporções imensamente mais terríveis da guerra de 1939-1945, o conflito anterior deixou de ser tão grande quanto parecia…

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Armando Alexandre dos Santos, licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras, membro da Academia Portuguesa da História e dos Institutos Históricos e Geográficos do Brasil, de São Paulo e de Piracicaba.

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