Sobre o Hinduísmo e a Alquimia do Espírito

Gabriel Chaim

 

O texto desta semana tratará de introduzir rapidamente o leitor ao Hinduísmo e apresentará, de maneira econômica, uma de suas perspectivas rituais em relação à Arte Sacra. Gostaria, como sempre, de salientar a falta de interesse em qualquer tipo de conversão religiosa, senão explicar os conhecimentos de base que justificam a arte hindu.

Hinduísmo, nas lentes do ocidente, serve como um termo genérico para se englobar um leque de crenças do subcontinente indiano que são organicamente relacionadas. Tais crenças possuem entre si seus graus de semelhança e diferença, contudo, a referência central do desenvolvimento da religiosidade é comum entre elas, permitindo uma associação genérica. O mesmo pode ser dito sobre o Cristianismo, por exemplo, que nada mais é que um termo genérico para se aludir às diferentes denominações como: Católicos, Ortodoxos, Protestantes etc. que fazem do Evangelho e a figura do Cristo o principal ponto de orientação para suas práticas e dogmas. Semelhantemente, Islã alude às fés que têm o Corão como base estrutural da religiosidade, envolvendo Sunitas, Xiitas, Ibadis, entre outros. O Hinduísmo tem, em sua base textual, os Vedas, os chamados Livros da Sabedoria.

Em pequena introdução, especula-se que os primeiros Vedas foram revelados em 1500 A.C. e literaturas complementares foram adicionadas nos séculos subsequentes até 500 A.C., fazendo dos Vedas a literatura religiosa mais antiga ainda praticada hoje em dia. É dito que os Vedas foram revelados pelos deuses aos antigos santos e sábios. Essas revelações são chamadas de “Sruti” e eram memorizadas e transmitidas oralmente pelos “Rishis”, os sábios e santos que as receberam. A língua em que os Vedas atuam é o Sânscrito e apenas passaram a ser escritas séculos depois de sua origem para fins de se preservar as Revelações em escrituras e tê-las como instrumento de referência. O esmeril em que os Vedas são recitados é admirável. Alega-se que o ritmo, entonação, melodia, pronúncia, tempo e todos os modos em que os hinos são praticados hoje ainda remontam às formas originais em que foram revelados. Isso se dá a uma rígida tradição em que mestres ensinam minuciosamente seus discípulos desde a infância as maneiras de se recitar os Vedas. Portanto, ao se deparar com monges hindus cantando os Vedas — adotando as palavras do professor de filologia de Harvard, Michael Witzel — “é algo como uma gravadora de 1500 a 500 A.C.” (Tradução do Autor).

 

Uma página do Rig Veda, um dos livros da sabedoria, Biblioteca Britânica

 

A arte nas tradições da índia oferece uma perspectiva da natureza humana em relação à criação, similarmente ao conteúdo dos Vedas. A construção dos templos hindus atua como uma maquete do cosmos e suas estruturas são símbolos associados às dinâmicas do universo. Uma dessas dinâmicas é a do “sacrifício” e ela permeia por diversas camadas de interpretação e expressão ritual no Hinduísmo. Contudo, em relação ao templo, o sacrifício ritual está na oferenda do material a serviço do espiritual. Um processo certamente alquímico que eleva e sacraliza a natureza da matéria oferecida e, por conseguinte, o próprio veículo ritual (quem faz a oferta). Titus Burckhardt (1967), historiador da arte expressa que: “Vimos que a construção de um templo é a expressão de uma cosmologia. Também carrega um significado ‘alquímico’, na medida em que é o suporte de uma realização interior no próprio artista (…) ” (Tradução do Autor). Este tipo de “alquimia ritual” está presente em todas as Artes Sacras: um monge ortodoxo, por exemplo, ao pintar um ícone, submete-se a um processo de abstinência e jejum para que o meio por onde o ícone se revelará, sendo o meio o próprio monge, possa tornar-se puro o suficiente para conceber a obra. Outro exemplo é dado pelo profeta Ageu do Antigo Testamento que, durante a construção do Segundo Templo de Jerusalém, questiona a “pureza ritual” daquelas que o erguiam e indaga se o templo realmente faz jus a Deus. Isso denota que, nas Artes Sacras em geral, mas em foco especial ao Hinduísmo, a prática artística é a reflexão do chamado “Karma Yoga”. Foi-se visto, em texto anterior (“Deus e o Compasso”), que o Hinduísmo é dividido em três caminhos iniciáticos: Jnana Yoga (o caminho do conhecimento), Bhakti Yoga (o caminho da devoção a Deus) e Karma Yoga (o caminho da ação, da prática), que é, neste caso, o caminho da iluminação através da prática artística.

 

Arte nas paredes do Angkor Wat, templo originalmente hindu no Camboja

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Gabriel Chaim, Pintor, Mestrado em Artes Visuais Islâmicas e Tradicionais na Prince’s School of Traditional Arts ([email protected], instagram: @gabrielluizchaim)

 

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