“Enterrem meu coração na curva do rio”

Camilo Irineu Quartarollo

 

“Enterrem meu coração na curva dório”, disse o nativo condenado pelo “progresso” – o qual os filmes mostram a marcha do Oeste americano como “bravura”, lugar idílico a ser conquistado. Nesse território, onde pastavam búfalos, antílopes, cavalos selvagens, gamos, o invasor europeu foi retirando o ouro e se apossando das montanhas sagradas de Black Hills entre outras. A caça da qual viviam os ameríndios foi banida. Mataram mais de três milhões de búfalos. Depois de muitas luas e falsas promessas esses povos foram acuados sistematicamente pela supremacia militar em reservas áridas, inóspitas, sujeitos ao frio, à fome e à morte, em nome do progresso americano. Os invasores autodenominavam-se desbravadores, como se toda a natureza fosse virgem a ser deflorada por intensa exploração predatória.

Desde os tempos imemoráveis os indígenas dividiam a vida em luas ou em tempos das formigas voadoras, tempo de colher o milho e outros, assim o nativo deixou-se viver com suas forças ancestrais e avesso ao progresso obsessivo que os ia matando sistematicamente. Com os povos das Américas Central e do Sul não foi diferente, agrupamentos aborígenes dizimados, e com crueldade, por cristãos confessos.

Para o indígena americano, porém, tudo tinha alma e as luas, como se a terra sonhasse. São tantas luas que contam os índios de seu cotidiano bucólico que fazem eco ao tema do Eclesiastes sobre o tempo oportuno ou ciclos da vida. Lua em que cresce a grama, lua em que os cavalos se espalham, lua em que as árvores estalam, lua das folhas que caem, lua em que aparece a grama vermelha, lua da estação que muda, lua em que os gamos batem com as patas, lua em que as cerejas estão maduras, lua em que a neve cai nas tendas, lua do cavalo, lua das grandes folhas, lua da partida dos gansos, lua dos brotos, lua em que caem os chifres dos gamos, lua do casamento dos gamos, lua das folhas amarelas, lua das cerejas vermelhas, lua da neve cega, lua da postura dos gansos, lua de tornar gordo, lua das árvores que fazem barulho, lua em que os lobos se reúnem, lua do olho dolorido, lua da grama verde alta, lua em que os gansos perdem as penas, lua do frio forte, lua da grama seca.

O escritor Dee Brown dá-nos esse concerto virtuoso da história dos antepassados de seu país no livro “Enterrem meu coração na curva do rio”.  E Jesus dos cristãos disse “Onde estiver seu tesouro aí estará também seu coração”. Nesta fase de confinamento acho que posso dizer que por onde nossa alma passeia lá estará também nosso coração.

Como pode o homem ser dono dos rios, dos búfalos, da terra? Para os nativos tudo era do Grande Espírito e, quando chegaram os homens brancos, os aborígines cederam parte para estes viverem, mas estes foram se apoderando, acuando os nativos como proprietários do lugar; comprando ilhas, terras, eivados de rancor nos corações insepultos. O coração do nativo pulsa com o Grande Espírito na curva do rio, sob as luas eternas em que vivem.

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Camilo Irineu Quartarollo, escrevente judiciário, escritor independente, autor do livro A ressurreição de Abayomi, entre outros

 

1 comentário em ““Enterrem meu coração na curva do rio””

  1. Ulisses Almeida Nenê

    Parabéns pela resenha, Camilo, além do registro histórico impressionante do massacre dos povos indígenas norte-americanos, também me chamou muito a atenção a maneira como eles denominavam ou ainda denominam a passagem do tempo, as estações do ano, com referências à Lua e sua relação com os movimentos da natureza. Em meio a tantos detalhes dessa tragédia que foi o extermínio de vários povos originais, isto surge como um toque de poesia, um testemunho da profunda integração desses povos com seu ambiente. Duas coisas que estou procurando nas edições brasileiras: onde foi dita, por quem, a frase que dá título ao livro? E também em que passagem o chefe Nuvem Vermelha fala: “Nos fizeram muitas promessas, mais do que posso lembrar, descumpriram todas, exceto uma: prometeram que iam tomar nossas terras e tomaram”.

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