Cultura ou falta de cultura?

Na Antiguidade não havia complacência com os que nasciam com defeitos físicos e mesmo em relação aos doentes. Em muitas culturas – se é que se pode usar adequadamente a palavra cultura para tão triste realidade – os que nasciam com defeitos físicos eram sumariamente eliminados. Em Esparta, por exemplo, os recém-nascidos que não parecessem aptos a serem futuros guerreiros eram lançados do alto de um penhasco; entre índios de algumas tribos brasileiras, eram mortos pelas próprias mães, e às vezes devorados por elas; na Roma Antiga, os doentes cujas enfermidades pareciam conduzir à morte nem sequer recebiam tratamento, mas eram abandonados à própria sorte.

A misericórdia, a compaixão, a caridade, eram coisas desconhecidas entre os pagãos. Até mesmo os filósofos estoicos, que apresentam tantos aspectos de elevação moral, professavam ideias que, aos nossos olhos, não podem deixar de parecer uma profunda crueldade.

“Marco Aurélio, imperador filósofo, que passa por um dos mais atilados do paganismo, afirma com sinceridade que o apiedar-se dos desgraçados e o chorar com os que choram, é um sinal de fraqueza. E Sêneca diz que a misericórdia é um vício do coração; e as pessoas honradas devem evitá-la: `Misericordia animi vitium est; boni misericordiamvitabunt. O homem prudente não tem misericórdia, diz ele ainda: `homo sapiens non miseretur. Eis, segundo Cícero, alguns preceitos do estoicismo: só os tontos ou os néscios é que são compassivos; o homem verdadeiramente homem nunca se deixa comover nem dobrar; dar ouvidos à compaixão, é um crime e uma maldade. (…) Numa sociedade, em que universalmente se ensinavam tais máximas, está claro que os miseráveis e os desgraçados não só não excitavam a comiseração pública, senão que, pelo contrário, só causavam desprezo, aversão e horror. `Dar de comer e de beber a um pobre, diz Plauto, é uma dupla loucura: para si, porque é perder o que se tem; e para ele, porque é prolongar a sua miséria. `O pobre, afirma Epiteto, está abandonado como um poço inútil, vazio, infecto, que a vista contempla com nojo. Em Atenas e no Egito um homem que não tinha pão e que o ia pedir, era pela lei condenado à morte.”. (DEVIVIER S.J., W. ApologeticaChristã. São Paulo: Companhia Melhoramentos de S. Paulo, 3a. edição, 1925, p. 454).

No mundo pagão, era completamente desconhecida a instituição do hospital, ou seja, um local para serem recolhidos e tratados os doentes, a fim de serem curados, se a recuperação fosse possível, e de sofrerem o menos possível, caso sua enfermidade fosse incurável. Havia médicos, que eram consultados para alívio e cura dos doentes, mas quando uma doença se reputava incurável, o doente, mesmo sendo rico, era abandonado para morrer depressa. O primeiro hospital, propriamente dito, de que se tem conhecimento em todo o Ocidente, foi fundado por volta do ano 390 por Santa Fabíola, dama nobre romana que doou boa parte de seu patrimônio para que na praia de Ostia, perto de Roma, fosse fundado um grande estabelecimento, em que pudessem ser acolhidos gratuitamente pobres enfermos. Mais ou menos simultaneamente outros dois hospitais foram fundados por cristãos no Oriente, um na Capadócia, por sugestão de São Basílio de Cesareia, e outro em Edessa, fundado por Santo Efrém.

Na Europa Cristã, os deficientes físicos eram tratados em estabelecimentos religiosos apropriados que, com os limitados recursos da época, ministravam os cuidados aos que deles necessitavam. Atualmente, com recursos muito mais fáceis e acessíveis, a tendência é incorporá-los à vida normal, aparelhando as instituições com todo o necessário para que possam comodamente exercer as mesmas atividades que as demais pessoas.

Cada vez mais as legislações dos diversos países estabelecem normas no sentido de considerar dever do Estado assegurar, a esses deficientes, as mesmas prerrogativas de que gozam os outros cidadãos.

Infelizmente, ainda está profundamente entranhada, na nossa cultura – ou melhor, na nossa falta de cultura… – a ideia de que os deficientes são criaturas irremediavelmente inferiores e, para o bem delas mesmas, mais vale a pena serem afastadas do convívio comum dos seres humanos. Na verdade, os deficientes devem se valorizar, devem desenvolver sua autoestima e se conscientizarem que não são inferiores, mas são apenas diferentes e podem desenvolver plenamente suas potencialidades.

Em países que tiveram guerras prolongadas, geralmente morreu muita gente e muita gente ficou aleijada. Nesses países, mais facilmente se admitia que postos de trabalho fossem ocupados por mutilados de guerra. Vi em Portugal muitos mutilados da guerra na África – negros e brancos – trabalhando normalmente em repartições públicas, movendo-se com naturalidade em cadeiras de rodas ou apoiados em muletas. Alguns não tinham um braço, outros haviam perdido uma perna ou até mesmo as duas. E trabalhavam. Lá, toda a gente achava isso normal. Aqui no Brasil, porém, há casos de aposentados “por invalidez” porque perderam o dedo menor de uma das mãos!

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ArmandoAlexandre dos Santos é licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.

 

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