Origem e desenvolvimento do Sacro Império Romano Alemão

Armando Alexandre dos Santos

Tratamos, nos últimos artigos, da organização hierárquica e sacralizada da sociedade medieval, com seus três elementos (clero, nobreza e povo) bem definidos. O principal elemento estruturador da organização política de Carlos Magno foi, sem dúvida, o estabelecimento do feudalismo, apoiado numa concepção sacralizada da monarquia e da própria ordem temporal. Quando se fala em estabelecimento do feudalismo, entenda-se isso num sentido muito amplo, abrangendo toda uma série de medidas administrativas, governativas, jurídicas e até educativas, que caracterizaram o reinado de Carlos Magno, como também no seu prosseguimento que foi o reinado de seu filho Luís, o Piedoso (788-840).
Depois da morte de Carlos Magno, ocorrida em 814, seus senhorios foram divididos entre seus três filhos, mas por morte de dois deles, o total do espólio acabou sendo atribuído a Luís, o Piedoso, que no ano de 817 proclamou o Império como único e indissolúvel, indicando como seu futuro sucessor seu filho Lotário, e designando para os outros filhos que tinha os reinos da Aquitânia e da Baviera.
Após a morte de Luís, entretanto, ocorrida em 840, os três filhos sobreviventes, Lotário, Luís e Carlos, entraram em disputa pela herança imperial, do que resultou, em 843, a chamada Partilha de Verdun. Daí em diante, embora teoricamente o Império ainda se conservasse, na prática ele não se manteve unido.
Cerca de 100 anos depois, mais precisamente em 962, o Papa João XII coroa um novo Imperador: Oto (ou Otão – forma que alguns historiadores luso-brasileiros preferem) I, o Grande, filho do Duque de Saxe Henrique, o Passarinheiro. Oto I (912-973) se consagrou novo campeão do Catolicismo, e com o apoio da Igreja e de poderosas abadias da Germânia obteve assinaladas vitórias sobre Húngaros e Eslavos que ameaçavam a Cristandade com novas invasões. Oto se fez também apoiador da política de reforma da Igreja, na qual se empenhava o Papado, de modo que passou a ser visto como um novo Carlos Magno, mais digno de sua sucessão do que seus herdeiros biológicos. A Oto I sucederam como Imperadores Oto II e Oto III, da mesma dinastia saxônica que, com as bênçãos de Roma, simultaneamente dava continuidade às tradições do antigo Império Romano e às tradições bem mais recentes e ainda vivas do Império Carolíngio. Foi assim que, com certa quebra de continuidade, teve prolongamento o Sacro Império mais propriamente Romano Alemão, o qual deveria se estender até princípios do século XIX.
Até o fim, o Sacro Império se manteve uma monarquia eletiva, por um sistema eleitoral que se firmou no século XIII, se sistematizou no século XIV e permaneceu em vigor até o século XIX. Cada vez que morria um imperador, seu sucessor era eleito por um colégio eleitoral constituído por um número reduzido de Príncipes Eleitores (os Kurfürsten) – senhores eclesiásticos e temporais aos quais incumbia esse privilégio. O número de eleitores, entre o século XIII e o fim do Império, variou de 6 a 10. Sem embargo dessa eletividade teórica, ao longo de mais de 800 anos quase sempre foram eleitos imperadores os filhos ou herdeiros imediatos do imperador falecido, de modo que, na prática, o Império era uma monarquia hereditária, embora se mantivesse formalmente eletiva.
Também na França, mais ou menos pela mesma altura, os descendentes de Carlos Magno se viram igualmente alijados do trono. Esse alijamento teve certa analogia com o que ocorrera duzentos anos antes com os Merovíngios. Desta vez, foram os Carolíngios, herdeiros de Carlos Magno, que se haviam transmutado como que em reis inoperantes, de modo que, sob sua autoridade nominal, era uma nova estirpe, a dos descendentes de Roberto, o Forte, Conde de Paris (815-866), que exercia a autoridade de fato. Aos Carolíngios sucederam os Capetíngios, com Hugo Capeto (941-996), que era bisneto de Roberto, o Forte, sendo coroado rei em 987. Hugo Capeto, na verdade, tinha nas veias sangue de Carlos Magno, do qual era descendente direto por dois lados diferentes, mas ambos por linha feminina.
O período que se seguiu aos reinados de Carlos Magno e seu filho Luís, o Piedoso também foi conturbado na sociedade civil. Por falta de uma autoridade soberana sólida, indiscutida e por todos respeitada, o feudalismo, que constituía uma poderosa força viva sobre a qual se apoiava a administração do Império e a própria estrutura social, tendeu a se tornar uma força mais centrífuga do que centrípeta. Foi esse período denominado de Anarquia Feudal. A tendência era a prevalência da autoridade local, de cada pequeno senhor, sobre uma autoridade superior, distante e pouco efetiva de um soberano. O equilíbrio profundo do mundo feudal estava, de certo modo comprometido, por falta de sua chave de cúpula, que era o Rei ou o Imperador.
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Armando Alexandre dos Santos, licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.

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