Covid-19: celulares são uma arma contra a doença

Sistema de telefonia, usualmente, já tem informações sobre onde as pessoas moram e dormem -Crédito: Fernando Mazzola

Uma das vantagens da tecnologia é que ela pode possibilitar à humanidade desenvolver novas estratégias para lidar com velhos problemas. É o que acontece no caso da atual pandemia. Não é de hoje que os seres invisíveis a que chamamos vírus vêm aterrorizando os humanos, mas nossos antepassados não tiveram a chance de ter nas mãos uma poderosa arma na guerra contra os inimigos: os telefones celulares. “Como diz o próprio nome, os telefones celulares formam uma rede de células, em que cada telefone se conecta a uma antena mais próxima, formando uma malha de inúmeras células de telefonia distribuídas pelas cidades. É por isso que os deslocamentos podem ser facilmente detectados, identificando em qual célula estamos conectados, e qual a intensidade do sinal, considerando a proximidade das antenas”, explica o professor Fernando Osório, do ICMC (Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação) da USP (Universidade de São Paulo), em São Carlos.
Os dados sobre a localização das pessoas são obtidos por meio do registro de qual antena está atendendo quais telefones, estando ativada ou não a localização por GPS no aparelho. Para não ser localizado, só mesmo desligando o telefone ou deixando o aparelho em casa. Por isso, o sistema de telefonia, usualmente, já tem registradas informações sobre onde as pessoas moram e dormem, endereço de trabalho e as atividades que costumam realizar rotineiramente.
Unindo esses dados a ferramentas de inteligência artificial, é possível identificar como as pessoas estão se deslocando e onde há grupos e multidões. “No caso dos deslocamentos, podemos monitorar quando um determinado aparelho trocou de posição e de antena, ao qual estava conectado. É possível, inclusive, monitorar perfis de usuários: um motorista de caminhão, por exemplo, tem certo padrão de deslocamento, que vai ser bem diferente das outras pessoas que residem na cidade onde ele está passando”, afirma Osório.
O professor ressalta, ainda, que coletar e analisar esses dados é de grande importância para que possamos adotar estratégias inteligentes de gestão na guerra contra o vírus. “Todos esses dados podem e devem ser disponibilizados de modo anônimo, sem invadir a privacidade das pessoas. De posse deles, é viável aplicar técnicas de inteligência artificial para estimar a propagação do vírus e ajudar no controle do avanço da doença”, enfatiza.
SEGURANÇA

Especialista em segurança na web, a professora Kalinka Castelo Branco, do ICMC, ressalta que até mesmo entre os profissionais que atuam na área a discussão sobre o uso desses dados tem gerado muita polêmica. “A gente tem hoje uma pandemia, então, temos a necessidade de acessar os dados para poder auxiliar na contenção do novo coronavírus. O que temos como premissa é que nenhum dado deve ser suprimido ou não fornecido em um contexto assim. Mas o debate que devemos trazer à tona é sobre como esses dados devem ser protegidos e como devem ser liberados”, ressalta a professora.
Na opinião de Kalinka, tem que mudar o foco da discussão, considerando que não se trata de avaliar se deve ou não acessar os dados dos celulares, pois já há evidências científicas do quanto isso é extremamente relevante na luta contra a Covid-19. “O grande problema que a gente tem aqui no Brasil é a falta de uma legislação. A entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), que já deveria estar vigente no País, foi protelada para janeiro de 2021 e as sanções poderão ser efetuados até agosto do ano que vem. O problema é que nós já deveríamos ter leis e formas de regulamentar o uso dos dados coletados dos celulares”, destaca.
Segundo ela, os Estados Unidos e os países da Europa saíram na frente no uso dessa arma contra a Covid-19 justamente pelo fato de já terem essas leis regulatórias, garantindo o respeito aos dados privados. “O que nos falta também, e que a gente vê que existem nos países da Europa e em outros lugares, é uma autoridade nacional de proteção de dados”, enfatiza.
De acordo com informações oficiais, o Sistema Inteligente de Monitoramento (Simi-SP), que está sendo utilizado pelo Governo do Estado de São Paulo, por exemplo, não possibilita a identificação do número do celular das pessoas. “Nesse caso, as empresas estão fornecendo ao Governo um grupo de informação já pré-processadas e não individualizadas”, diz a professora. “A gente pode ter problema com isso? Os dados podem cair em mãos erradas? Sim. É por isso que eu volto a dizer: precisamos ter regulamentações e leis”, defende.

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