“In Extremis” – O alvissareiro ressurgir do BBB

Cecílio Elias Netto
Entre os muitos privilégios que me concedeu a Vida, ter sido próximo de João Chiarini foi um deles. Sendo um dos grandes folcloristas do Brasil, agitador cultural, João Chiarini marcou fortemente muitos jovens de minha geração. Incluo-me entre eles.
Foi ele quem me despertou, ainda adolescente, para o admirável mundo da cultura e filosofia populares. “Quer conhecer o homem do povo? Leia o que ele escreve, ouça o que ele fala.” – essa, a síntese de seu ensinamento. Aprender com o que está escrito nas traseiras dos caminhões, nos muros da cidade, nos sanitários públicos… Ouvir o que contam os idosos, a sabedoria que transmitem… Foi e é fascinante.
Diante dessa nossa angustiante crise universal, poderíamos lembrar: “Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe.” Ou: “Depois da tempestade, vem a bonança.” E “nada como um dia depois do outro”. Os povos sempre aprenderam com a dor. E, agora, chegou nossa vez.
Mas, acreditar é preciso. E repudiar também. Acreditar na ciência, nos profissionais competentes, nos especialistas. E repudiar as tolices de aprendizes de feiticeiros, mesmo quando – por desatino de muitos – ocupem cargos decisivos. A desobediência civil – diante de irresponsabilidade manifesta – é um direito humano.
É um desafio imenso em tão desnorteante momento histórico. O que seria, porém, de náufragos que se recusassem a tábuas salvadoras? A sabedoria dos humildes deixou-nos experiências anteriores que não poderiam ser esquecidas: “Fazer do limão uma limonada”, “Há males que vêm para o bem.” Ou há quem duvide de, após essa tragédia coletiva, surgir um novo tempo, um novo mundo? Quais e como, não o podemos prever. Mas começam a despontar, como que num renascimento, indícios de não ser, o homem, apenas a criatura egoísta, perversa que as últimas décadas formataram. Reaparece, sem alarde, o homem qualificado por Thomaz de Aquino: verdadeiro, bom, belo (verum, bonum, pulchrum). É o que somos, diferentemente do que desejam que sejamos.
Desgraçadamente, o massacre desencadeado pelo materialismo sem controle conseguiu, por muito tempo, destacar a face negativa do ser humano. A capacidade de pensar, de refletir foi de tal forma minada que estamos próximos de confundir humanos com robôs. A nossa juventude foi roubada em seu direito de conhecer a História pelo menos em seus mínimos fundamentos. Basta-nos constatar o sucesso espetacular de programas como o BBB, um festival de nulidades, para se aquilatar a valorização do nada imposta ao indefeso e cansado espectador. É a apologia da vulgaridade. Por todo o sempre, o mundo e a humanidade assistiram a e viveram tragédias apocalípticas. A sabedoria do velho Zaratustra já nos advertira: “tudo já aconteceu antes e irá acontecer de novo, exatamente igual, infinitas vezes.” Se há um eterno retorno, há, também, um eterno recomeçar.
A lama pode esconder tesouros esquecidos. Basta, no entanto, um temporal que a revolva para a riqueza reaparecer. Está acontecendo. No silêncio das gestações, num amanhecer após a noite escura. Pois, enquanto a televisão idiotiza a população, ao produzir esse inacreditável BBB – de futilidades, sandices, valorização do nada – outro BBB está surgindo a partir da ação silenciosa de nossa gente anônima.
É o BBB que permite a solidariedade, o socorro mútuo, a presença da sociedade onde projetos econômicos falharam. É o BBB do ser humano verdadeiro, revelando-se na comovedora solidariedade das pessoas entre si. É o BBB do Bom, do Bem e do Belo. O BBB verdadeiro.

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Cecílio Elias Netto, escritor, jornalista, decano da imprensa piracicabana ([email protected])

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