A busca da terra sem males

Adelino Francisco de Oliveira

A pandemia de Covid-19 tem suscitado múltiplas incertezas. Há um sentimento generalizado de perplexidade diante da velocidade dos acontecimentos. De repente, a rotina existencial, que permitia com que a vida mantivesse uma certa linearidade e segurança, acabou sendo totalmente alterada. A exigência do isolamento social impôs um outro ritmo à existência. Sentimentos de medo, insegurança, ansiedade, tristeza passaram a dizer muito sobre o cotidiano. O futuro tem sido cada vez mais compreendido como um enigma aberto.
A banalidade do mal agora se apresenta no crescimento exponencial de corpos mortos, muitos sem poder contar com a dignidade de um velório. Na televisão, a contagem digital de corpos já sem vida aparece como um mero relatório, com projeções, estatísticas, debates e recomendações. A cada dia novos tenebrosos números, sem nenhum rosto, sem identidade, sem nomes, como se não representassem existências reais, perdidas por um vírus enlouquecido. A grande mídia se apressa em noticiar mais um furo de reportagem, em uma frenética concorrência para informar em primeira mão, escolhendo as imagens que melhor impactem e fornecendo dados que contabilizam mais mortes.
Mesmo com fartas e tristes evidências, há quem ainda insista em dizer que é preciso salvar a economia. Em carreatas macabras, compondo a narrativa de um perverso ritual, organizam-se desfiles patrióticos, exigindo o sacrifício do outro, no altar do deus mercado. Tempo ainda é dinheiro, mesmo diante de uma grave pandemia. Para alguns, pode-se perder a vida, mas não é aceitável fracassar nos negócios. Interessante pois a salvação é um termo teológico. Salvam-se vidas, existências, pessoas. O que é instrumental, como a economia, sempre pode ser reconstruído.
Mas o fato é que, diante de uma situação tão extrema, a vida não poderá mais ser como era. As sociedades são desafiadas a conceber outras formas de organização. A morte de milhares de pessoas tem, necessariamente, que produzir significados. É tempo de repensar a existência, em sua singularidade ética, mas também as estruturas sociais, na dinâmica das articulações no campo da política, compondo uma sociabilidade aberta, sustentável e complexa.
Talvez a experiência limite dê vazão a uma outra cultura humana, menos voltada para o consumo de coisas supérfluas e bem mais interiorizada, atenta ao que é, de fato, essencial. Em um movimento de olhar para si mesma, cada pessoa deve se sentir provocada a se redescobrir em sua humanidade. De maneira livre de preconceitos, que estigmatizam e rotulam, em uma dinâmica que se revela capaz de compreender e aceitar a condição humana, o princípio ético da alteridade destaca-se como uma referência preciosa e fundamental.
O defrontar-se com um vírus com tamanha letalidade deve também conduzir para a instauração de uma nova ordem mundial. Na esfera política, a expectativa é que sejam edificadas estruturas sociais pautadas na justiça e no direito, capazes de suplantar todas as formas de exploração e opressão. Uma sociedade onde caibam todos, voltada para o bem coletivo, alicerçada a partir do programa dos direitos humanos.
Na elaboração desse novo tempo, torna-se fundamental iniciar o processo de transição ecológica, reconfigurando o padrão de desenvolvimento. É preciso agora um desenvolvimento que parta da concepção de que existe um vínculo profundo entre a vida humana e a natureza. A visão da ecologia integral, alertando sobre a indissociabilidade entre o humano e a natureza, deve conduzir e verticalmente perpassar a noção cultural de desenvolvimento, em qualquer área.
A percepção de que a vida se define por sua complexidade, talvez seja o ponto de mutação para a aurora pós-pandêmica. Oxalá a busca da terra sem males seja a inspiração e referência para o projeto de reconstrução que se impõe. O reencontro quase espiritual da pessoa com sua humanidade, em uma existência que se volta ao cultivo da interioridade; a alteridade como elemento constitutivo das relações com o outro; o projeto utópico, de um mundo estruturado na liberdade e igualdade, reconhecendo a dignidade de cada pessoa; a compreensão de que a vida se integra à natureza, portanto o meio ambiente deve ser sempre respeitado, preservando fauna e flora. Eis algumas pistas, vislumbrando se recompor as possibilidades do futuro.

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Adelino Francisco de Oliveira, professor no Instituto Federal, campus Piracicaba;
Doutor em Filosofia e Mestre em Ciências da Religião; [email protected]

 

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